sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Dois mil e dez (onde tudo pode acontecer)

Apesar de estarmos a poucas horas de 2011, não tenho a sensação que o ano esteja acabando. Porque, pra mim, Natal e Ano Novo é com calor; frio é no meio do ano. Mesmo já tendo passado o Natal, essa sensação não muda.
Ainda mais porque decidimos não viajar e ficar em Milão mesmo. Eu gostaria de viajar para algum lugar mais quente, como sul da Espanha ou sul da Itália, mas acabou não dando certo. Acho que foi melhor assim, porque este ano os aeroportos estão realmente uma bagunça, então o melhor é ficar em casa mesmo.
2010 foi um ano tão agitado que vai ser difícil ter outro assim. Foi um ano de grandes mudanças, pra fechar uma década de grandes mudanças também (pelo menos pra mim).
2010 começou com muita chuva e com o Davide me dizendo que, às portas dos 29 anos, não poderíamos mais perder tempo no Brasil esperando uma oportunidade de trabalho. Eu chorei e disse que não queria morar na Itália, pois temia o que mais odeio aqui: o frio. Mas aos poucos fui me acostumando à idéia e tudo foi nos empurrando para a mudança.
O ano começou também com minha sogra hospedada em casa, uma prova de paciência. Admito que não foi fácil, mas foi gratificante. E ainda é, quando ela se emociona ao ver suas fotos no Rio ou ao contar da viagem para alguém "Quando eu, nessa idade, na cadeira de rodas, ia imaginar fazer uma viagem dessas, subir no Cristo Redentor? Foi emocionante!".


Foi o ano do casamento do meu irmão, que me deixou mais ansiosa, nervosa e emocionada que o meu próprio casamento! Foi quando ganhei a melhor cunhada e um sobrinho culto que é uma graça!



Ano em que me decepcionei com gente muito próxima, mas me reaproximei de antigas amizades há muito perdidas. Paulinha, obrigada pelos longos emails, pelo post de aniversário, por me deixar acompanhar o desenvolvimento do Caio. Que 2011 comece bem com a chegada dele!
Ter que encontrar o momento certo para contar a todos que estávamos partindo também não foi fácil, mas foi fortalecedor. Quem enfrentou isso, enfrenta qualquer coisa.
Organizar mudança transcontinental, ter que pensar em tudo que fica, o que vai, documentos, procuração, cartão de crédito, FGTS, Seguro Desemprego, justificativa eleitoral, Permesso di Soggiorno, Codice Fiscale, Residenza. Ufa! Espero que em 2011 não tenha que lidar com tanta burocracia como em 2010!
Foi um ano para exercitar a paciência: 2 meses sem marido, 3 meses sem casa, ansiedade pra chegar na Itália; chegar já pensando em voltar ao Brasil, em Novembro. Pois é, não deu, foi triste não poder comemorar os 60 anos da minha mãe, mas Fevereiro tá logo aí. Haja paciência!
Monte Carlo
Também foi hora de quebrar recordes: encontrar emprego em 20 dias, num país estrangeiro, vai ser difícil superar! Recorde também de temperatura: -5˚C às 8h da manhã, ou ao meio-dia, não faziam parte da minha rotina. E um recorde a ser quebrado em 2011: viagens. Nunca havia colocado meus pezinhos em tantos países num ano só: Brasil, Itália, França, Mônaco, Suíça!

E finalmente 2010 sempre será lembrado por ter visto neve (caindo) pela primeira vez na vida. Os floquinhos de algodão caindo do céu e derretendo no chão, ou grudando na sua roupa.
Foi um ano de muito novidade, adaptação, muito queijo e muito vinho! Muita conversa via email, Skype, MSN. Não sei o que seria de mim sem a internet...
Depois de tudo isso, eu só posso desejar que 2011 seja um ano tranquilo!

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Stomaco-dipendente


Davide diz que a sociedade italiana é "stomaco-dipendente", e ele tem toda razão.
Mas só comecei a perceber isso quando minha sogra esteve no Brasil por 3 meses. Ou melhor, não percebi, achei que eram manias devido à doença dela. Percebi mesmo quando cheguei aqui.
Da minha sogra tenho pérolas como: "arroz prende o intestino" ou "doce de banana é pesado" (torrone não, né?). A clássica foi quando ela comeu sagu com vinho, na noite de Ano Novo, e no dia seguinte disse que não havia dormido bem, pois sentia "aquelas bolinhas subindo e descendo".
Acabo de voltar do almoço, onde escutei que comer frutas logo após as refeições atrapalha a digestão! Que o estômago pára de digerir a carne ou a "pasta" para digerir a fruta! Onde, meu Deus??
O pior é que não é uma "crença popular", os médicos também pregam esses absurdos! E todo mundo acredita!
Se você disser pra minha sogra que está com dor de cabeça, ela diz que é a digestão, e te manda tomar um remédio para o estômago. Já ouvi gente dizer que vai pôr uma blusa porque está ventando, e o vento frio na barriga pode atrapalhar a digestão (isso em pleno verão). Tem também a clássica "tomar um café depois do almoço para facilitar a digestão". Além disso, é enorme o consumo de água com gás aqui. Por quê? Porque facilita a digestão, claro. Os licores (limoncello, amaretto) que são servidos ao final da refeição, são chamados de "digestivos"!
Davide adora nosso arroz branco. Tanto que, muitas vezes, eu tenho que "impor" risoto ou pasta ao cardápio, porque, por ele, comeríamos arroz branco todos os dias. Mas pra ele o arroz só é bom mesmo se feito com alho, com cebola não tem o mesmo gosto. Quando ele diz isso todo mundo torce o nariz e acha que é "indigesto", mas adoram quando provam!
O ápice do absurdo foi quando vi, na TV, uma propaganda de uma sobremesa pronta, e no final a mocinha dizia que ajudava na digestão! Desde quando doce pronto facilita a digestão? Comentei com o Davide e a resposta foi que aquele doce não vendia muito, então eles colocaram a palavrinha mágica (digestão) para  melhorar as vendas. Dá pra acreditar?
Note-se que tudo gira ao redor do estômago. Não só na hora de preparar pratos conhecidos mundialmente, mas também na hora de digeri-los!

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

There's no place like Rome


Roma é meu Rio de Janeiro na Itália. É a cidade a 500 km de casa onde sonho morar um dia. Por enquanto vivo na cidade dos negócios, onde se ganha dinheiro, e enfrento 3hs de trem para atingir meu sonho.
Romanos e milaneses são como paulistas e cariocas. Um diz que o outro não trabalha e só curte a vida; este responde que a cidade do colega é fria e não tem nada de interessante.
Cariocas são arrogantes porque sabem que moram em uma das cidades mais lindas do mundo. Romanos são orgulhosos de morar na primeira metrópole do mundo, berço da civilização moderna. Sabem da beleza e importância de sua cidade. E que, faça chuva ou faça sol, milhões de turistas do mundo todo sonham em vê-la ao menos uma vez na vida.
Estive em Roma no último fim de semana pela segunda vez, e sempre volto pra casa surpresa, encantada e grata pela oportunidade de vê-la. Decidimos comemorar meu aniversário ao lado de nossos amigos romanos, Edoardo e Livia. Que, aliás, são um capítulo a parte na nossa história com Roma.
Davide os conheceu em SF, e eu conheci Davide no dia da despedida deles. Ou seja, mal falei com eles. Mas quando vim para a Itália em 2007, passamos o Réveillon em Roma, e os conheci melhor. São muito simpáticos e atenciosos, como os cariocas.
Edo e Livia foram os únicos amigos italianos que foram ao nosso casamento no Brasil, e isso só aumentou minha admiração por eles. Ficaram em nossa casa e passamos 10 dias de muitas risadas. Eles são inteligentes e não perdem uma piada.
Edoardo soube aproveitar o presente divino que é nascer em Roma. Conhece cada cantinho da sua cidade e tem prazer em te contar. Quando criança, a cada domingo seu pai o levava para ver um monumento diferente e explicava sua história. Além disso, ele gosta de ler e se interessa pela história da cidade. Dá pra imaginar o prazer de ter uma pessoa assim como guia?
Além disso, Edo é apaixonado por fotografia, como Davide, e os dois passam o tempo todo falando da luz, do foco, de exposição e abertura da lente.
Livia não perde uma balada, sempre sabe onde está acontecendo uma festa. E faz questão de nos levar, mesmo que não tenhamos sido convidados.
Edo e Livia falam com forte sotaque romanesco, antigo dialeto de Roma. Hoje não há mais diferenças entre as palavras do italiano corrente e do dialeto, mas na cadência sim, no modo de falar "comendo" as palavras. Me divertia dizendo que não entendia o que eles falavam (o que muitas vezes era verdade) e Edoardo me chamava de "extra-comunitária" (imigrante de fora da UE). Seus amigos diziam que meu modo de falar é divertido, pois além do sotaque brasileiro, tenho também o sotaque milanês. E claro, acreditam que seu modo de falar é o mais correto, já que Roma é a capital.
Com toda essa companhia, evitamos os lugares muito turísticos, sempre cheios. Só quis entrar no Panteão, já que estava fechado da outra vez, e me irritei com a quantidade de gente parada tirando foto de tudo.
Depois saímos andando, passamos por algumas praças, sempre com alguma explicação histórica, pelo gueto e chegamos à beira do rio Tibre, onde acabava a cidade, antigamente. Descemos até a margem, já que as águas estavam baixas, e só se ouvia o barulho do rio, nem parecia que estávamos no meio de Roma. Depois passamos a tarde andando por Trastevere, um bairro famoso por sua vida noturna, mas muito tranqüilo durante o dia. Com suas ruazinhas estreitas, parece uma antiga cidade medieval, uma graça.
Infelizmente no domingo estava chovendo, e entramos no Castelo Sant'Angelo. Do terraço, têm-se uma vista linda do Vaticano, da cidade, mas o tempo não colaborou. Mesmo assim tiramos várias fotos, mas todas com aquele céu cinzento.
Depois Livia nos levou para dar uma volta de carro, já que a chuva não cessava, e acabamos em Termini, a estação de trem.
A sensação de poder andar por Roma com calma, sabendo que se pode voltar quando quiser, é maravilhosa. Mas chega de viajar no frio, agora quero vê-la na Primavera!