sábado, 30 de abril de 2011

Toscana


Se Roma é o Rio de Janeiro, Toscana é Minas Gerais. É aquele lugar lindo cheio de colinas e vales, onde se come bem e as pessoas são alegres e festeiras. Terra de Leonardo DaVinci, Dante Alighieri, Michelangelo, Maquiavel, Roberto Benigni e dos Medici, é uma das regiões mais ricas, cultas e belas da Itália.
A Toscana é daqueles lugares que nenhum ser humano deveria morrer sem tê-la visto. É a Itália que habita o imaginário de muita gente. É perfeitamente compreensível que muitos turistas ingleses ou americanos enlouqueçam e comprem casas ali.
Antes que eu inicie a contar minha viagem na Páscoa, sugiro alguns filmes passados na Toscana: "Sob o Sol da Toscana", "Beleza Roubada", "O Paciente Inglês" e "A Vida é Bela". Aliás, foi depois de assistir "Sob o Sol da Toscana" que Davide me disse que deveríamos marcar o casamento e me prometeu mostrar tudo o que há de mais belo em seu país. E a promessa se cumpriu no último fim de semana.
Pra mim é muito estranho que no país berço da Igreja Católica não seja feriado na Sexta-Feira Santa, e ninguém soube me explicar o porquê. Aqui é feriado na segunda, que eles chamam de Segunda-Feira do Anjo, momento da anunciação da Ressurreição.


Pois bem, nossa viagem começou no sábado e estava prevista para acabar na terça-feira, já que Davide tirou um dia de férias. Durante os 4 dias o clima não colaborou muito, sem chuvas, mas sempre nublado, cinzento.
No sábado, antes de chegarmos ao nosso destino, Gaiole in Chianti, Davide quis me mostrar uma cidadezinha próxima à Florença onde ele viveu por 4 anos, durante sua infância. O vilarejo fica sobre uma colina e a vista de lá é belíssima. A lembrança que ele tem daquele lugar é que havia sempre muitas festas.
Nosso hotel também era em um vilarejo, meio fora da cidade, em meio a vinhedos e olivais. Muito charmoso,  era dividido em várias casas. Nosso "pacote" incluía vinoterapia (imersão em uma banheira com vinho e água morna), jantar em uma Champagneria de Siena e degustação de vinhos em 2 vinícolas locais. O problema é que uma dessas vinícolas, Barone Ricasoli, pertence à família do barão que inventou o corte de vinho chamado Chianti! Foram só 4 taças, mas foi uma experiência maravilhosa, e não teve como sair sem algumas garrafas.
A Champagneria de Siena era uma graça. Aliás, Siena é uma graça, ainda mais à noite, sem hordas de turistas. Até fiquei um pouco decepcionada quando voltei no dia seguinte e vi centenas de pessoas em frente a todos os monumentos, tirando foto de tudo.
Na segunda-feira, quando o feriado estava terminando para muita gente, começou a melhor parte. Saímos do hotel e fomos pelas estradinhas de Chianti parando em várias cidadezinhas. Entre elas a medieval San Gimignano, muito linda, mas também cheia de turistas. Dormimos em Pisa, que à parte a torre, é uma cidade bem mal-cuidada. Após o jantar, fomos de carro até próximo à torre e vê-la assim, à noite, toda iluminada, parecia irreal! Parecia de gesso, algo montado assim, de propósito. Como fazem os americanos em Las Vegas.
San Gimignano vista de uma de suas 14 torres

A torre mais famosa do mundo
Na manhã de terça vimos a torre com mais calma e depois fomos para Lucca, uma cidade não muito procurada por turistas mas muito graciosa. Também bastante medieval, possui enormes muralhas onde é possível até andar de bicicleta! Depois de almoçar em uma deliciosa trattoria "sincera" (em italiano, um "ristorante sincero" é aquele honesto, para não-turistas), alugamos duas bicicletas e saímos passeando sobre as muralhas, vendo a cidade de cima, descendo apenas quando víamos algum ponto mais interessante.
Depois disso, tivemos que pegar a estrada de volta e acabou meu sonho toscano. Mas voltei pra casa agradecida de poder vê-la, assim como acontece com Roma.
Sobre as muralhas de Lucca

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Design & Amigos

Com a Primavera, chegaram também os turistas. Nunca vi a cidade tão cheia como no último fim de semana. Fila para entrar na Duomo, fila para subir ao topo da catedral, fila para tomar um sorvete, fila para tudo!
Além da Primavera, a explicação para essa invasão de turistas na cidade é o Salão de Móveis de Milão, a mais importante feira de design do mundo.
Quarta-feira fomos com nosso amigo Paolo, que é designer e desenhou estas cafeteiras lindas, ao Fuori Salone, uma série de exposições de novos designers fora do salão oficial. E claro, muito mais divertido, como tudo que é extra-oficial. Passamos a noite entrando em galpões de antigas fábricas procurando festas e objetos interessantes. E o que mais se via eram estrangeiros, até mesmo brasileiros!





Mas não foi só a cidade que foi invadida por turistas, minha casa também.
Nos últimos 2 finais de semana recebi a visita da minha amiga Ligia, que veio a trabalho, mas aproveitou a escala em Milão para me visitar e passear um pouco. E deu sorte, porque os dias estavam lindos, chegando a fazer 31C no sábado!
Com os italianos em SP, aprendi a ver a cidade com outros olhos e a buscar o que poderia ser interessante a um turista. Aqui em Milão ainda tenho um pouco essa veia turística, porque ainda estou descobrindo a cidade. Mas é interessante também mostrar um lado não muito turístico, mostrar os hábitos das pessoas que vivem aqui, coisas que não vemos quando estamos a passeios.
Por exemplo, levei-a para tomar o que considero o melhor sorvete de Milão, e que não está no circuito centro-pontos turísticos. E expliquei que, não importe a ordem que você peça os sabores, eles tem já a ordem certa de colocá-los na casquinha. Geralmente eles colocam o mais forte por baixo e o mais suave por cima. Como os vinhos, que tem ordem certa a serem degustados. E isso aprendi por que? Porque tenho um italiano que me explica!
Também fomos tomar café da manhã num bar típico Siciliano, do outro lado da cidade, bem escondido. Coisa que só quem conhece acha.
Outro ponto de estranheza para ambas as partes é o banheiro. Aqui é normal jogar o papel no vaso, e os brasileiros ficam com medo que vá entupir. Já para os italianos no Brasil, é motivo de crise jogar papel sujo no cestinho. Tanto que meu sogro não acreditou em mim e entupiu o vaso de um apartamento em Ubatuba!
Além disso tudo, certas coisas só acontecem com certos amigos.
No domingo estávamos passando de carro pelo Centro e vi uma cara conhecida, então me dei conta que era Mano Menezes! Se a Ligia não tivesse chamado "Mano!" e ele não tivesse dado "tchauzinho", não teria tido coragem de descer do carro e sair correndo pra tirar uma foto, acrescentando "Podemos tirar uma foto? Somos Corinthianas!". Já dizia meu pai que corinthiano e puxa-saco tem em todo lugar...
São essas coisas que podem até dar vergonha depois, mas na hora você nem pensa, porque tem um amigo do lado, e depois se diverte lembrando.
É por isso que não tenho amigos brasileiros aqui. As pessoas sempre me perguntam se não faço amizade com brasileiros e não acho que deva ser amiga de uma pessoa só porque dividimos a mesma nacionalidade. Na verdade a única brasileira amiga é a Fernanda, que eu já conhecia no Brasil e faz parte da família.
Eu sinto falta dos meus amigos brasileiros, daquelas pessoas que eram minhas amigas porque tínhamos afinidades, não porque simplesmente morávamos na mesma cidade ou estudávamos na mesma escola.
Sinto saudades das risadas de muitos deles, de conversar sobre cinema ou literatura, dividir novas receitas, relembrar o que passamos juntos e organizar jantares temáticos. Sinceramente acho muito mais fácil encontrar amigos italianos que compartilhem os mesmos gostos do que fazer amizade com alguém que também sinta falta do maracujá e do churrasco, do Reveillon na praia e da simpatia no atendimento ao cliente. Depois que comentarmos as nossas saudades, o que sobra de assunto?

Eu, Ligia e a Duomo. Parece montagem, mas não é.

Eu e Mano

Mano e Ligia