terça-feira, 20 de dezembro de 2011

30 em Londres

Você tem um sonho?

Estamos há uma semana do Natal e eu ainda não escrevi sobre meu aniversário. Mas fim de ano é sempre assim, corrido.
Meus aniversários "fora de casa" têm sido sempre viajando. Acostumada às comemorações de aniversário no calor, acho meio deprimente aniversário com frio, e viajar é uma maneira diferente de comemorar. Em 2007 meu presente foi Veneza, 2010 Roma e, neste ano, Londres.
Sim, faz só 4 meses que eu estive em Londres, mas uma cidade tão grande e tão importante, é praticamente impossível de se conhecer em 3 dias! Portanto decidimos voltar no meu aniversário. Pegamos 2 dias de férias e fizemos um fim-de-semana prolongado. Como em Agosto vimos a cidade "por fora", decidimos que desta vez nos dedicaríamos mais a museus e lugares fechados, para fugir do frio. Na verdade nem estava muito frio, muito menos choveu (o que é comum em Londres), mas ventava muito, o tempo todo.


South Kensington. Parece San Francisco, mas é Londres.

Desta vez ficamos em um hotel em South Kensington, um típico bairro londrino com todas aquelas casinhas vitorianas, sem portão e com jardim na frente. Uma coisa que logo notei é que as pessoas não usam cortinas e dá pra ver as casas por dentro! Ok, eu sei que não tem perigo e ninguém tem medo de ladrão, mas e a privacidade? Eu não acho legal as pessoas que passam na rua verem o que estou comendo ou se estou brincando com meus filhos. Mas eles não pareciam se importar nem um pouco.
Na quinta-feira, 24/11, chegamos em Londres à tarde e, no caminho para o hotel, vimos várias crianças no metrô com uniformes de escola saídos diretamente do Harry Potter. Me senti em um filme!
Largamos as malas no hotel e fomos direto para a National Gallery, onde nos encontramos com nosso amigo Mattia. De lá fomos para um Pub, comemorar meu aniversário. Depois compramos estes mini cupcakes, afinal, aniversário tem que ter bolo, certo?


Na sexta-feira, realizei um sonho antigo de conhecer Stonehenge. Pra quem acha que é apenas um monte de pedras, aqui pode encontrar um pouco de sua história http://pt.wikipedia.org/wiki/Stonehenge.
Apesar do vento fortíssimo que estava por lá e fazia com que 10°C parecessem -10°C, foi emocionante. Claro que eu já havia lido várias coisas e me informado o máximo que podia, mas pegamos o áudio-guia, que vai te explicando cada ponto, conforme você vai dando a volta. Eles dizem, por exemplo: “exatamente neste ponto, no solstício de Verão,  os raios solares passam por esta pedra e atingem o altar no centro”. Ou a mesma explicação com relação ao Inverno e às outras estações. Emocionante. Só é uma pena que não se pode andar por entre as pedras, pois antigamente os turistas tiravam pequenos “souvenirs” que as estavam danificando. Hoje só é possível acessá-las nos dias de solstício de Verão e Inverno, equinócio de Outono e Primavera, quando a visitação ao monumento é gratuita e aberta ao público.
Por ser em um ponto no meio de colinas e campos, alugamos um carro para chegar até lá. Se estão lembrados, os ingleses dirigem do lado direito. Mesmo pegando um carro automático e dirigindo a maior parte do tempo na estrada, Davide disse que suou a viagem inteira, preocupado com os espelhos, com as rotatórias e conversões à direita. Mas voltamos a Londres sãos e salvos e muito felizes com a nossa “aventura”.
À tarde decidimos ir à Harrod’s e no caminho visitar a pista de patinação e a feirinha de Natal no Hyde Park. Por um “erro de cálculo”, caminhamos um pouco mais do que o esperado e atravessamos o parque todo (que é enorme), mas chegamos lá! Às 16h30 já havia escurecido e parecia noite! O parque estava completamente deserto e de vez em quando passava alguém correndo ou de bicicleta, mas tudo muito tranquilo.
Apesar do cansaço, chegamos ao nosso destino final, Harrod’s. A loja é enorme e não tivemos muito tempo para ver tudo, mas saímos contentes com algumas sacolinhas do verdadeiro chá inglês. Terminamos nossa noite num restaurante japonês.


Torre de Londres


Sábado foi dia de visitar a Torre de Londres, famosa por ter aprisionado, entre tantos outros, Ana Bolena. E também por abrigar o museu com as jóias da coroa. Entre outros museus que estão dentro da Torre, que na verdade é uma fortaleza, este era o único com fila para entrar! Sinceramente, acho que o museu das armaduras, ou a parte onde reconstruíram alguns aposentos, é muito mais interessante. Não me empolga muito ver a riqueza da realeza, ainda mais sabendo que grande parte de tudo aquilo foi obtido de uma forma, digamos, não muito democrática.
No sábado gostaria também de ter subido à cúpula da Catedral de Saint Paul, mas o céu não estava muito “limpo” e acabamos desistindo. Demos uma volta em Covent Garden e Piccadilly Circus e as ruas estavam lotadas de gente! Em Agosto achei que a cidade estava cheia por causa do Verão, mas num fim de semana normal, sem feriado, fiquei surpresa ao ver todo aquele movimento. E isso é uma das coisas que mais sinto falta em uma cidade pequena como Milão: essa agitação, as pessoas sempre na rua, sempre aquela sensação de que tem alguma coisa acontecendo. Depois de enfrentar até fila para entrar no metrô, decidimos jantar num restaurante indiano próximo ao hotel.


Globe Theater


Reservamos a manhã do Domingo, nosso último dia, para visitar o Globe Theater, construído recentemente mas fielmente copiado do teatro utilizado por Shakespeare. Infelizmente no local onde ficava o teatro original foi construída uma fábrica de cerveja e a reconstrução do teatro teve que ser feita a cerca de 700mts de distância do local original. Mesmo não sendo exatamente o teatro de Shakespeare, a reconstrução é bem fiel e dá pra imaginar como as coisas aconteciam. Espetáculos são exibidos só nos meses de Primavera e Verão, já que o teatro é aberto. Durante os meses frios de Outono e Inverno é apenas possível visitá-lo. Como nosso tour acabou cedo, decidimos correr até o Museu de Londres, que conta a história da cidade. Adoro esses museus que contam como a cidade foi fundada e o que se mantém inalterado até os dias de hoje.
Outra coisa que notamos desta vez é que os ingleses (ou mais especificamente os londrinos) morrem de medo de eletricidade. No banheiro do hotel não havia nenhuma tomada e o secador ficava guardado no quarto. A mesma coisa quando ficamos na casa do nosso amigo, não existiam tomadas no banheiro. Por ter sempre sido uma cidade muito grande e com alta densidade populacional (entenda-se “bagunça”), Londres já passou por vários incêndios, sendo que o maior de todos praticamente destruiu a cidade. O que explica este receio em misturar energia elétrica com água.
Infelizmente nossa viagem acabou aqui, deixando ainda muito dessa cidade tão espetacular e encantadora a ser descoberto. O que, infelizmente, não poderá ser feito no próximo ano, já que em 2012 acontecem as Olímpiadas em Londres e acredito que a cidade vai estar cheia e cara durante praticamente todo o ano.
Finalizando o post (e a viagem) de aniversário, o sentimento mais forte que eu tenho, ao chegar aos 30 anos, é medo de que a vida seja curta demais para tanta viagem!


St. Paul em um dia lindo. Mas era Domingo.

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Mercado de trabalho italiano



Certa vez li no blog de uma amiga que durante o dia ela tinha várias idéias para escrever, mas elas sempre se perdiam antes que ela tivesse tempo de colocá-las no papel. Me identifiquei porque isso sempre acontece comigo. Este post está na minha cabeça há um tempão, mas nunca conseguia terminá-lo. Vamos a ele.

 
Vivendo aqui há mais de um ano e tendo trabalhado em 2 empresas diferentes, me sinto mais à vontade para falar um pouco como funciona o mercado de trabalho aqui.
O que me motivou a escrever sobre isto foi o constante questionamento das pessoas no Brasil sobre as férias. Então vou começar pela melhor parte.
Felizmente as férias não funcionam como no Brasil. Pode variar um pouco de acordo com o contrato, mas o normal é que, a cada mês trabalhado, o funcionário tenha direito a 2 dias úteis de férias. Isso quer dizer que ao final de 12 meses, o funcionário tem 24 dias úteis, ou 5 semanas inteiras.
O bom disso é que se você quer emendar um feriado ou precisa resolver um problema pessoal, é só usar as férias. Claro que tudo isso tem que ser acordado previamente com o superior, mas eles não costumam criar caso. A única ressalva é que o funcionário deve ter, pelo menos, 10 dias úteis (ou 2 semanas) seguidos de férias.
Eu, que sempre “piquei” minhas férias porque gosto de viajar, estou adorando tudo isso. É um sistema muito mais flexível que te permite aproveitar mais. Por exemplo, meu aniversário será em uma quinta-feira e já acertamos que vamos pegar 2 dias de férias, fazer um fim de semana prolongado, e viajar para comemorar. A parte ruim disso tudo é que só posso tirar 2 semanas, em Fevereiro, para ir ao Brasil. O lado bom é que quando minha mãe (ou qualquer outra pessoa) vier me visitar, posso tirar uns dias e dar um pouco mais de atenção.
Portanto, quando eu disser que estou de férias, não se assustem e perguntem “Como, se você começou a trabalhar há pouco tempo?”
Outro ponto meio complicado é que não existe uma lei única para todos os trabalhadores (como a nossa CLT), cada categoria tem a sua. Eu, que trabalho em banco, sou contratada pelas leis de Crédito. Tem também Comércio, Farmacêutica, Metal mecânica... No total são quase 400 tipos de contratos diferentes!! A Itália é o país com maior tipologia de contratos de trabalho! Se por um lado isto garante uma melhor cobertura (inclusive jurídica) das profissões, por outro gera um sentimento de perda devido à quantidade de leis, artigos e regulamentos.
Além disso, o contrato pode ser por projeto, a tempo determinado (renovável) ou a tempo indeterminado. O sonho de todo trabalhador é ter o contrato a tempo indeterminado, que dá mais segurança e estabilidade.
Os sindicatos aqui ainda são muito fortes e as leis trabalhistas estão muito mais do lado do trabalhador. Se você tem contrato a tempo indeterminado, é praticamente impossível ser demitido, a menos que a empresa vá à falência ou que a tua posição deixe de existir. Isso não é necessariamente bom.
Eu considero o mercado de trabalho aqui muito conservador. As pessoas ainda têm aquela idéia que um emprego é pra vida toda, e que ser demitido é uma vergonha. Existe uma espécie de ciclo vicioso: o funcionário não se esforça porque sabe que não será demitido; a empresa não se preocupa em motivar o funcionário porque sabe que não é fácil arrumar outro emprego a tempo indeterminado; mesmo que o empregado não esteja feliz, ele não procura outro emprego porque tem medo de sair da zona de conforto. E entram neste ciclo vicioso!
Um outro ponto que gera esta “preguiça” é a variação salarial. Entre um empregado e seu gerente / diretor não há uma diferença grande de salário. Se no Brasil um funcionário ganha R$ 3000,00 e o chefe ganha R$ 20.000,00, aqui o funcionário ganha 1000€ e o chefe, 4000€. Isto não gera esta grande diferença social que vemos no Brasil, mas também desestimula um empregado a crescer. Muitos pensam “pra que me esforçar e ter mais responsabilidades sem ter um grande aumento de salário?”.
Quando se fala em salário, é normal que digam o ganho anual bruto mas o mensal, líquido. Usando o exemplo acima, diriam que o ganho anual é de 20.000€. Dividido em 13 pagamentos (ou 14 quando há bônus), menos os impostos, daria 1000€.
Sim, o pagamento de imposto de renda aqui é bem maior que no Brasil, e o único consolo é que o dinheiro é bem aplicado em serviços à população:  saúde, ensino (do infantil à universidade), segurança pública.
A lista de benefícios oferecidos pela empresa também não é tão extensa como no Brasil. Vale alimentação ainda é de papel, em valores irrisórios (de 2€ a 5€), não existe vale-transporte nem assistência médica. Em pouquíssimos casos há o que eles chamam de “caixa assistência”. O empregado pode utilizar um médico particular e solicitar reembolso de 80%, que leva meses para ser pago.
Mas como eu disse, já que o governo oferece bons serviços públicos, a empresa não se preocupa em oferecer todos estes benefícios. Poderia explicar também como funcionam os serviços públicos, mas prefiro dividir os assuntos e deixá-los para um outro post.
Resumindo, acho que um mercado mais “agressivo” como o brasileiro é mais saudável. As pessoas têm medo de serem demitidas de um dia a outro, mas por outro lado o empregador sabe que se não oferecer uma boa retribuição ao funcionário, outra empresa também pode levá-lo de um dia a outro.

"Tio, o que é um trabalhador atípico?
É um que tem um contrato fixo!"

domingo, 2 de outubro de 2011

Matrimônio à Italiana


No último fim de semana de Setembro participamos de mais um casamento ítalo-brasileiro. Ou melhor, ítalo-sansei.
Angelo é de Riccione, uma cidade à beira do Mar Adriático, e Lilian é de Jundiaí. Os dois se conheceram na Austrália, durante um intercâmbio, e depois de atravessarem o Atlântico várias vezes, decidiram se casar e morar em São Paulo.
Davide conheceu Ângelo em São Paulo, quando um dava aulas de Italiano e o outro estudava Português. Os dois ficaram amigos e começaram a desvendar São Paulo juntos, e como Ângelo é cozinheiro, faziam até feira e depois preparavam vários pratos. Sexta-feira era uma festa em casa: eu chegava do trabalho e encontrava vários pratos prontos, especialmente o espaguete com vôngole, que batizamos de “la pasta di Angelo”.
Portanto, quando os dois decidiram se casar, logo fomos convidados. A família de Angelo administra um hotel à beira-mar, onde ele é o chef, que nos foi oferecido como hospedagem para que pudéssemos participar da festa, já que sua cidade fica a 380km de Milão.
Partimos no sábado de manhã e chegamos a tempo de provar o espaguete com frutos do mar no almoço! À tarde fomos dar uma volta na praia, que estava vazia por ser já Outono, mas a temperatura estava bem agradável. Aliás, o fim de semana todo foi ótimo: sol e calor (27°C), coisa anormal para esta época do ano.


O casamento foi no domingo de manhã, como é costume por aqui. A cerimônia, com missa, é feita pela manhã e depois é servido um longo almoço. Em algumas festas há música e as pessoas dançam, mas não é muito comum. No altar ficam apenas os padrinhos, dois de cada lado, e os noivos. Os pais ficam sentados no primeiro banco, junto com o resto da família. Ao terminar a cerimônia, todos saem da igreja antes dos noivos, para a tradicional chuva de arroz. Os amigos mais próximos e a família levam sacos de 5kg para distribuir e até uns conezinhos para encher de arroz. Eu, que estava na “primeira fila” também levei chuva de arroz! Entrou arroz no cabelo e até no vestido! O terno do Davide ficou todo sujo de branco. Os amigos do noivo prepararam um caminhão com bexigas, cartazes de “Just married”, um colchão na carroceria, para os noivos, e bandeiras do Brasil e da Itália. Achei bem legal e lembrei que, no Brasil, nem enfeitar o carro dos noivos se usa mais. Acho que poderíamos resgatar um pouco dessas tradições!


Por ser durante o dia, as mulheres usam vestidos curtos ou longuete, e ninguém entra na igreja com os ombros de fora. Todas tinham uma echarpe nas costas e a noiva, que usava um tomara-que-caia, colocou por cima um bolerinho de tule.
A festa foi em um hotel, sobre uma colina, com vista para o mar. Como já disse, o clima estava ótimo, o que deixou a vista ainda mais bonita. É costume fazer festas ao ar livre, um pouco fora da cidade, com uma vista bonita. Entendi que, para eles, é muito triste uma festa em um salão fechado, basicamente como fazemos nós. Mas acho que toda essa vontade de aproveitar a Natureza é porque, durante os 6 meses de frio, ninguém tem vontade de sair de casa. Então os outros 6 meses devem ser muito bem aproveitados!


Na parte externa do hotel foi servido o aperitivo, enquanto aguardávamos os noivos, que tiravam fotos na praia, e quando eles chegaram, entramos para o almoço. Seguindo a tradição italiana, que adora ficar horas em volta da mesa, foi servido entrada, risotto, espaguete, peixe como prato principal, frutas, sorbetto e, finalmente, o bolo. Ufa! Tudo isso acabou por volta das 19h!! Durante o almoço os amigos fazem algumas brincadeiras com o casal e depois teve a retrospectiva, coisa inédita por aqui. Os convidados adoraram e ficaram admirados com a novidade!
Outra tradição é que seja entregue, ao invés de bem-casado, amêndoas embrulhadas no tule branco, 6 ou 7 em cada pacotinho. Neste caso as amêndoas eram vermelhas, verdes e brancas (cores da bandeira italiana), e as fitinhas que amarravam o tule, verde e amarela. Comentei que nós usamos o bem-casado mas o doce não é conhecido por aqui.
O casamento civil será realizado no Brasil, em Novembro, com direito a festa também. Festa que, infelizmente, não poderemos participar.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

London

 
Quando eu era adolescente e cogitava a possibilidade de fazer um intercâmbio, sempre dizia que, apesar de preferir o inglês americano, gostaria de estudar na Inglaterra por causa da cultura. Essa possibilidade só surgiu quando eu tinha 25 anos, e Londres foi forte candidata, sendo descartada somente pelo alto valor da libra esterlina. Como todos sabem, o destino quis que eu fosse parar em San Francisco para chegar ao meu grande sonho, a Europa.
Bem, estamos em pleno Verão e segunda-feira foi feriado aqui, Ferragosto (aquele que pára tudo, a cidade fica vazia, etc.). Viajar para a praia seria loucura, já que todos correm ensandecidamente para lá. Então decidimos ir na direção oposta: Londres. Ok, eu sei que 3 dias é muito pouco para uma cidade tão grande e tão importante, mas é sempre melhor que nada, certo? Ao montar nosso roteiro, decidimos que não entraríamos em nenhum museu e veríamos a cidade “por fora”.
Sexta-feira desembarcamos no aeroporto de Heathrow e embarcamos diretamente no metrô. O que? Como assim? Metrô dentro do aeroporto? Pois é, nós brasileiros ainda nos espantamos com isso, ainda mais que existem 3 estações para 3 terminais diferentes. Mas estamos falando do maior aeroporto da Europa e um dos maiores do mundo.
Ao desembarcar em Covent Garden, bairro onde mora o amigo do Davide que nos hospedou, a sensação que tinha é que nada daquilo era real. As janelas dos apartamentos fechadas e as ruas bem iluminadas, davam a sensação que tudo era um grande cenário. Parecia mesmo Las Vegas (Deus me perdoe a heresia)!
Deixamos nossas malas e fomos diretamente à casa noturna onde ele trabalha como técnico de áudio e som. Entramos diretamente num cenário típico londrino, bar com música ao vivo, meninas dançando em frente ao palco e paquerando os integrantes da banda, outras bêbadas correndo em direção ao banheiro... Mas não ficamos por muito tempo porque tínhamos que repor as energias para sábado explorar a cidade.
Quando saímos de casa o céu estava azul e o tempo fresco, nada de fog londrino. Tomamos café da manhã na Starbucks e começamos nossa longa caminhada. Saímos de Covent Garden, atravessamos o Tâmisa e passamos pela London Eye, a moderna roda-gigante que já se tornou mais um símbolo de Londres. Dali já dava pra ver o Parlamento com o seu tão famoso relógio. Aliás, sabiam que Big Ben é o nome do sino que há na torre, não do relógio, como todos pensam? Tiramos algumas fotos (não muitas, porque as ruas estavam lotadas de turistas!) e seguimos em frente. Passamos pelo James Park, um parque muito bonito, com o tão famoso e bem cuidado gramado inglês, e chegamos ao Palácio de Buckingham. A troca da guarda daquele dia já tinha acontecido, mas tinha 2 guardinhas andando de um lado para o outro como soldadinhos de brinquedo. Confesso que fiquei um pouco decepcionada com o Palácio: não muito grande e com uma arquitetura bem simples. Depois soube que foi eleito como um dos prédios mais feios da Inglaterra e do mundo

Eu e o "monolito" Buckingham Palace

Então atravessamos o Green Park, ao lado do Palácio, e chegamos a Piccadilly Circus, uma ´pseudo´ praça, onde várias ruas se cruzam e o trânsito é uma bagunça. A área é rodeada por vários teatros e lojas e também é famosa pelos outdoors de TDK, Sanyo, Mc Donald's, Coca-Cola, Samsung e Nescafé, que estão ali há anos, mas que agora estão em reforma. Uma espécia de Times Square londrina. Compramos nossos bilhetes para assistir ao musical We Will Rock You, à noite, e pegamos o metrô até Camden Town. Famoso bairro alternativo, tem uma feirinha aos sábados e quartas, cheia de quinquilharias e coisas interessantes no meio de toda essa bagunça. Almoçamos comida chinesa em uma das bancas, mas havia também comida indiana, tailandesa, japonesa, italiana e até brasileira! Depois demos umas voltas na feirinha, fizemos umas comprinhas e voltamos para casa para o tão merecido descanso, antes da noite começar.
Fomos a pé (li em algum lugar que ‘não há nada mais civilizado do que poder andar a pé numa cidade’) até o teatro, em West End, adoramos o musical, só com músicas do Queen, e depois fomos, também a pé, a um restaurante indiano. Aliás, comida indiana já virou prato típico na Inglaterra, ainda mais em Londres. Capital do Império, é normal que haja tantos indianos na cidade. 

London Eye, Parlamento, The Clock Tower

No domingo tomamos café da manhã com cupcakes (um tanto quanto enjoativo, diria) e fizemos uma longa caminhada até Tower Bridge. Ao atravessar o Tâmisa pela Waterloo Bridge, olhando no sentido do Parlamento e London Eye, tive a sensação de que tudo era um grande parque de diversões. A roda-gigante; os prédios, tão limpinhos, coloridinhos; tudo que sempre vimos através de fotos ou pela TV, não pareciam real! Ao nos aproximarmos da Tower Bridge, com as torres de pedra, tão branquinhas, e aquelas cordas azuis, tive novamente a sensação de que era um cenário. Me lembrou o quebra-cabeças 3D que o Pedro, meu ‘sobrinho’, tem.

Tower Bridge

Ali perto almoçamos o tão famoso fish n’ chips e seguimos para The City of London, centro histórico e região financeira da cidade. Em alguns lugares ainda dá pra ver pedaços dos muros da cidade fundada pelos romanos. Por ser domingo, parecia uma região fantasma, bem vazia e, graças a Deus, livre de turistas. Fiz questão de visitar essa área porque queria ver a Bolsa de Valores e The Bank of England, que financiou tantas guerras, descobertas, cruzadas, etc. Ali pertinho tem também a St. Paul’s Cathedral, onde se casaram Diana e Charles. Infelizmente aos domingos a catedral está aberta apenas aos peregrinos e não pudemos subir na sua cúpula, de onde se tem uma bela vista da cidade. Aproveitamos o tempinho que tínhamos, pegamos o metrô e fomos a Trafalgar Square, que estava lotada de turistas. Tiramos algumas fotos e voltamos para casa. À noite nosso plano era ir a algum pub, mas não sabíamos que aos domingos suas cozinhas fecham cedo, ficando aberto até às 23h apenas o bar. Acabamos jantando um gostoso hamburguer, mas não pudemos viver a experiência de frequentar um pub inglês e comer comidinhas nada saudáveis.

The City e St. Paul's Cathedral
Segunda-feira, após um café da manhã com muffins, dedicamos nosso último dia à abadia de Westminster. Para chegar lá, pegamos um dos famosos ônibus londrinos, vermelho e de 2 andares. Aliás, uma das coisas mais estranhas é que a direção fica a direita, o que muda também a mão das ruas. Sempre que íamos atravessar, olhávamos para os dois lados, porque nunca sabíamos de onde poderia surgir um carro. Sabiam que até o final do séc. XVIII o mundo todo viajava do lado esquerdo da estrada? Esta era a opção mais sensata em épocas medievais, pois a espada ficava do lado esquerdo, quase todos eram destros e assim ficava mais fácil lutar ao cruzar com o inimigo. Mas eis que surgiu Napoleão, canhoto, cheio de querer mudar o mundo e obrigou todas as colônias francesas a utilizarem o lado direito da estrada. A única colônia inglesa que também adotou a mudança foram os EUA, que estavam ansiosos para abandonar todas as ligações com seu antigo colonizador.
Mas voltando à nossa viagem, também fiquei um pouco decepcionada com a abadia de Westminster. Imaginava-a maior, mais larga. Tanto que no dia seguinte fui procurar na internet as fotos do casamento de Kate e Willian e dava ainda a impressão que a igreja era muito maior! No preço cobrado pela entrada (17£!!) estava incluído um audio guide, que explicava de quem era todos os túmulos que ali estão e sua importância para a história. Olha, era um tal de irmão matar irmão para ficar no poder e depois, na morte, os filhos quererem fazer um túmulo mais rico que o outro para mostrar sua importância... enquanto isso, o povo ó! Outra coisa que notamos é que, apesar de ser uma das mais importantes igrejas da Inglaterra, ela é toda feita de pedra e tem mármore apenas no altar principal, o que demonstra que o país não era tão rico quando ela foi construída. Ou que os ingleses não dão tanta importância para a arquitetura como os italianos...
Para fechar nossa viagem com chave de ouro, almoçamos um dos mais famosos pratos ingleses no Brasil, a baked potato. E partimos já planejando quando será nosso retorno porque 3 dias é realmente pouco para tudo que Londres oferece. Mas confesso que em tão pouco tempo esta cidade já conseguiu roubar o posto de NY como uma das minhas cidades favoritas. Tudo bem que os dias estavam lindos e não sei se em dias de fog é assim tão fácil se encantar com a cidade!


domingo, 7 de agosto de 2011

Roma

 
Demorou 2 semanas para sair o post sobre Roma. Mas antes tarde do que nunca!
Em 1 ano morando na Itália, já estive em Roma 2 vezes.
Como já escrevi uma outra vez, Roma é uma cidade que sempre te oferece surpresas.
Desta vez, a viagem foi feita de boas e más. Começou com a notícia de uma greve nacional do transporte público e trens. E agora? Como faremos? Agendei essa viagem há 2 meses e agora essa greve? Mas depois de alguns dias, surgiram algumas informações de que alguns trens partiriam, outros seriam cancelados. O nosso, claro, estava na lista dos cancelados, mas conseguimos alterar as passagens para um trem 15 minutos mais tarde.
A outra surpresa foi na volta. A casa de controle da estação Tiburtina, em Roma, pegou fogo, vários trens foram cancelados e todos estavam atrasados. Mais uma vez, claro, o nosso foi cancelado. Fomos orientados a entrar em qualquer trem que partisse para Milão. Conseguimos viajar sentados a viagem toda, mas foi um tal de gente brigando pelo lugar...
Mas apesar de todos esses contratempos, o fim de semana foi ótimo. Foi a primeira vez que estive em Roma no Verão. Esperávamos um clima muito mais quente, mas por sorte estava agradável. No sábado de manhã choveu um pouco e parecia que ia continuar assim por todo o dia, mas o tempo abriu e conseguimos aproveitar bastante. Foi também a primeira vez que estive em Roma com minha mãe, uma viagem que nunca imaginamos fazer juntas, antes que eu viesse morar na Itália.
Andamos o dia todo, revendo muitos pontos famosos (Fontana di Trevi, Piazza di Spagna) e descobrindo outros nem tanto. Tentamos subir na cúpula da Basilica di San Pietro, mas a fila dava voltas e mais voltas para entrar no Vaticano. Pois é, viajar no Verão tem suas desvantagens também… A cidade estava lotada de turistas (o que não muda muito durante o ano), principalmente americanos e brasileiros.
No sábado à noite, deixamos as “senhoras” no hotel e fomos a uma festa dos nossos amigos romanos. Afinal, não tem como ir a Roma e não encontrar nossos queridos amigos Edoardo e Livia. Uma pena que desta vez não tivemos mais tempo para ficarmos juntos.


Edoardo, Davide, Livia, eu e Anna Maria
No domingo minha mãe foi ao Coliseu e fomos encontrá-las na saída, e devo confessar que me surpreendi, como se nunca o tivesse visto, quando saí do metrô e dei de cara com ele assim, grandioso. Demos a volta por trás dele para chegar à saída e a vista do Forum, dali, também é magnífica. Coisas que só Roma pode te oferecer.
Mas confesso que mudei um pouco meu conceito sobre a cidade. Aquela vontade enorme de morar lá não sei se ainda existe. A cidade é linda, animada, plena de cultura. Mas tenho que admitir que Milão é muito mais organizada, o que é muito mais importante para quem vive. O metrô em Roma é sofrível, só duas linhas
que se concentram na região central. A justificativa é que todas as vezes que tentavam escavar para fazer uma nova linha, encontravam sítios arqueológicos e tinham que parar a construção. As linhas de ônibus também não são muito regulares.
O trânsito é caótico (nada comparado a SP, claro), o que faz com que muitas pessoas utilizem motos e scooters para ir trabalhar. E quando você mora numa zona residencial, mas leva 25 minutos da sua casa até
o centro, de metrô, começa a levar em consideração estes prós e contras.
De qualquer maneira, Roma continua ocupando o podium das minhas cidades preferidas no mundo (acompanhada por Rio de Janeiro e Nova York). E a apenas 3 horas de casa, haverá sempre um bom motivo para visitá-la.

Fontana di Trevi

domingo, 31 de julho de 2011

Passou voando

 
Você passa 2 meses organizando uma viagem de 22 dias, e esses 22 dias passam muito mais rápido que aqueles 2 meses. Foi assim que o meu mês de Julho, tão atribulado, passou voando.
Foram 2 meses montando a agenda, depois pesquisando hotéis, trens e aéreo. Meses em que eu passava e repassava mentalmente tudo o que queria mostrar a minha mãe, os cardápios do dias em que ela estaria em Milão, tudo o que eu queria que ela conhecesse e provasse. E de repente eu me vi no aeroporto, coração apertado, me despedindo dela. Triste não só porque sei que vamos nos encontrar daqui 6 meses, mas também porque não deu tempo de ver e fazer tantas coisas!
Ainda bem que fui encontrá-la em Roma, porque só os 7 dias que ela ficou em Milão teriam sido muito pouco. Aliás, como sempre, Roma é uma cidade que merece um post à parte.
Mas nem deu tempo de sentir a casa tão vazia que já chegou mais uma brasileira, Elisa, vocalista da banda onde o Davide tocava no Brasil, que está viajando pela Europa há um tempinho. Melhor assim. Pelo menos me ocupo e deixo pra sentir saudades depois.

Eu, Elisa e a Duomo

terça-feira, 19 de julho de 2011

Tudoaomesmotempoagora

Sabe quando acontece tudoaomesmotempoagora? Então, meu mês de Julho está assim.
Comecei a trabalhar na semana que chegava minha mãe. Por um lado foi bom, porque o tempo passou voando e nem deu tempo de ficar muito ansiosa (apesar de não dormir direito a semana inteira). Como na entrevista eu disse que minha mãe estava chegando e queria uns dias (e eles concordaram), tirei a segunda-feira pra ficar com ela. Aí foram 3 dias de maratona turística intensa, com direito a picnic no Parco Sempione, visita ao Castello Sforzesco (segunda vez só neste ano) e ao Teatro alla Scala.

Parco Sempione e Arco della Pace

No domingo fomos ao Lago Maggiore mas, apesar dos 35C em Milão, o tempo lá não ajudou muito. Tentamos sair de barco mas choveu. Acabamos passando o dia conhecendo Intra, a cidade à beira do lago, e depois Bureglio, o vilarejo nas montanhas onde fica a casa da família do Davide.
Na terça-feira ela partiu para a Suíça e eu, para o trabalho. Passei a semana inteira cansada, tentando me recuperar do fim-de-semana e das noites mal dormidas da semana anterior.
Aí no último fim de semana foi a vez dos nossos amigos suíços (Karin e Benedict) virem nos visitar. O plano era passarmos um fim de semana no lago, mas mais uma vez choveu. Fizemos mais uma mini-maratona turística e servi um almoço tipicamente brasileiro, a pedido dos convidados: moqueca, mandioca frita e caipirinha! Claro que eles adoraram tudo.

Karin e Ben adorando a mandioca!

Pra completar, a semana mal começou e eu já estou animadíssima com o fim de semana, em Roma, onde encontraremos minha mãe. Depois ela volta pra Milão, fica mais uns dias e acabou a viagem. E junto com a viagem, acabou o mês!
Mas eis que eu olho para o céu e vejo uma enorme lua cheia brilhando lá em cima. E eu sempre me lembro que cheguei na Itália numa semana de lua cheia, e quando a vejo, me dou conta que mais um mês se passou. Só que dessa vez não foi só mais um mês, foram 365 dias ou 12 meses ou 1 ano!
E foram tantas coisas neste 1 ano (que passou voando) que nem dá pra ficar relembrando. Melhor ainda, tá tudo registrado aqui neste blog, que também está completando 1 ano de vida!

P.S. Escrevi o texto assim, meio correndo, porque o tempo tá curto mesmo!

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Mama is coming home

Il Duomo di Milano


Sabe criança quando os pais vão à escola em uma festinha? Que quer mostrar a eles onde é sua sala, a mesinha onde senta, o melhor amiguinho e a professora?
A menos de uma semana da chegada de minha mãe, é assim que me sinto. Tudo que vejo e acho bonito ou interessante, penso em mostrar a ela.
Mostrar que Milão não é só a cidade da moda e do design. É a cidade do Duomo, uma das maiores catedrais góticas do mundo, toda em mármore. É a cidade da "Última Ceia", de Leonardo da Vinci, que não é um quadro, mas um afresco. Aliás, é uma cidade cheia de obras de Leonardo, inclusive arquitetônicas, como I Navigli, um sistema de canais de irrigação e navegação. Cidade também de um dos mais famosos teatros líricos do mundo, o Scala; do Castello Sforzesco; da Pinacoteca di Brera, da Galleria Vittorio Emanuele; da Stazione Centrale, uma das mais bonitas estações de trem que já vi, toda imponente, em legítimo estilo fascista.

Galleria Vittorio Emanuele

Stazione Centrale

Quero mostrar detalhes e sabores que só se conhece quando se vive na cidade. Coisas comuns aos habitantes, não aos turistas. O melhor sorvete, o melhor cappuccino, a melhor pizza.
Como em São Paulo, quando recebíamos visitas e mostrávamos o que poderia ser interessante a um turista, mas eles se surpreendiam com coisas tão comuns a nós, moradores.
Mostrar que, apesar de ser fria e cinza durante o Inverno, Milão sabe te surpreender durante os meses quentes, quando seus moradores escapam nos finais de semana e a cidade fica à sua disposição.

I Navigli com os Alpes ao fundo

Assim como o Davide se encantou e se enraiveceu com São Paulo, eu também aprendi a admirar Milão e a me sentir um pouco sua cidadã neste quase 1 ano de convivência.
Nos poucos 6 dias em que minha mãe estará por aqui, entre uma viagem e outra, é tudo isso (e mais um pouco) que pretendo mostrar a ela e fazê-la entender como é possível amar e odiar uma cidade ao mesmo tempo.

Castello Sforzesco

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Saudades

Após 11 meses vivendo no "estrangeiro", a saudade bateu forte.
O Verão começou há 2 dias, o sol reina absoluto até 21h30 e minha mãe chega daqui 15 dias. Ou seja, nenhum motivo para melancolia.
Mas ontem a saudade apertou 2 vezes, pensando naqueles que sei que não vou ver tão já.
Saudades das minhas tias, do meu tio, das minhas amigas. Saudades de estar junto, de abraçar, de conversar sentados no sofá, de cantar no carro, de dividir a mesma mesa. Aquelas saudades que Skype, Messenger e email não resolvem.
Nem precisa ver a pessoa todo dia, mas saber que ela está por perto. Que de metrô você chega lá. De carro, ônibus, avião, que seja. Mas saber que vocês estão no mesmo hemisfério, no mesmo fuso horário, no mesmo feriado.
Logo que cheguei aqui batia uma saudade de manga cheirando na fruteira, de pastel com caldo de cana, de escondidinho de carne seca. Mas nesse tipo de saudade a gente dá um jeito, pede pra mãe contrabandear uma carne seca na bagagem, de vez em quando investe 40€ num restaurante brasileiro, adapta e reinventa algumas receitas.
O que não dá pra reinventar é o abraço da tia, uma noite no bar jogando conversa fora, uma tarde no museu, ano novo na praia. Essa coisa de estar junto, de se reunir pra falar besteira e dar risada, de ficar feliz por estar por perto, sem nenhum motivo especial.

domingo, 12 de junho de 2011

Todo dia é dia


Se tem uma coisa que me incomoda cada vez mais são essas "festas obrigatórias". Dia dos Namorados, Dias das Mães, Dia dos Pais, Dia das Crianças, Natal, etc. São festas onde você tem a obrigação de estar feliz. E de dar presentes. Se eu tiver um problema com alguém, não é o"espírito natalino" que vai me fazer perdoá-lo ou pedir perdão. Eu posso ter esta vontade nos outros 364 dias do ano, não posso?
Para mim o cúmulo do absurdo foi escutar esta semana, na Jovem Pan (sim, eu escuto rádio pela internet), que estava chegando o "dia mais romântico do ano". Como assim?? Quer dizer que eu não posso ter o meu momento romântico quando eu quiser? Tem que ser em 12 de Junho? E a amiga que foi pedida em casamento, no seu aniversário, na Disney?  E a outra que também foi pedida em casamento no aniversário, no meio de um almoço em família? Não foi esse o momento mais romântico para elas? Por que temos que considerar "romântico" uma data única e exclusivamente comercial?
Eu comecei a rever meus conceitos, como já disse aqui no blog, quando meu pai morreu. Depois de muitos anos namorando, eu estava preocupada que ia passar o Dia dos Namorados sozinha. Mas aí, no dia 12 de Junho de 2006 eu estava na missa de sétimo dia do meu pai, e a última coisa que me importava naquele momento era ter um namorado. Eu estava tão preocupada com uma banalidade, que a vida me mostrou o que realmente tem valor.
Mas não parou por aí. Em 12 de Junho de 2008 meu namorado estava há mais de 9000km distante de mim e eu, entrando numa sala de cirurgia. Quando o médico marcou a cirurgia, pediu desculpas por ser nesse dia, e eu respondi que não me importava. Porque não importa mesmo.
Me importa estar com ele no meu aniversário, no dele, no nosso aniversário de namoro e casamento. E só. Já temos bastante datas pra comemorar, não é?
Pensa bem, tem alguma coisa mais romântica que levar a namorada pra jantar de surpresa, num dia que ela não está esperando? Ou mandar flores assim, do nada, só pra dizer que a ama? E tem programa mais de índio que enfrentar espera no restaurante e no motel só porque é Dia dos Namorados? Ter a obrigação de dar um presente?
Passando do Dia dos Namorados para o Dia dos Pais, pensem na criança que não tem pai porque este morreu ou foi embora. Pensem nas festinhas na escola e nas propagandas "neste Dia dos Pais, diga a ele o quanto o ama com presentes XYZ". Não tem nada pior do que não poder mais dizer a ele o quanto o ama! Eu sei porque senti isso na pele. E não tem nada mais cruel, também. Todas aquelas imagens de famílias felizes, casais apaixonados, crianças ganhando presentes.
Eu já passei Natal sem minha família (pai, mãe, irmão) porque meu irmão estava doente, isolado num hospital.  E é horrível você não estar feliz numa noite onde todos devem estar felizes.
Alguém aqui vai me dizer que tem data mais comercial do que o Natal? O que é aquela invasão a todos os centros comerciais? Aquela gente doida pra comprar "uma lembrancinha", que seja?
Meu Natal é em Fevereiro, quando eu parto do pólo norte diretamente ao verão do hemisfério sul, cheia de presentes e saudades. E aí eu reúno minha família porque neste dia, realmente, nós estamos felizes por estarmos juntos.
Voltando ao ponto de partida deste post, não tem nada mais "cafona" do que ficar deprê no Dia dos Namorados (citando uma amiga que pratica o desapego há anos). Portanto, aproveite que hoje é Domingo, véspera de Dia de Santo Antônio, e vá a uma festa junina se entupir de vinho quente, cuscuz e paçoquinha. Se eu estivesse aí, era o que ia fazer, porque vocês não sabem a saudade que dá um cuscuz paulista.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tocando em Frente

Na manhã de 06 de Junho de 2006, enquanto me vestia para trabalhar, pensei "Nossa, amanhã vai fazer 20 anos que o vô morreu!". Ao voltar do almoço, recebi a notícia que meu pai, seu filho, havia falecido da mesma maneira: na rua, de enfarto.
Daquele dia eu me lembro da amiga que me levou pra casa, da que passou a noite comigo, da que deixou o bebê em casa para me dar um abraço, dos amigos que ligavam o tempo todo oferecendo qualquer tipo de ajuda (material, emocional, espiritual), dos que deixaram de trabalhar para estar lá na hora do enterro, das pessoas que eu não esperava, mas apareceram, até da amiga que não foi porque eu esqueci de avisar, mas que estaria lá com certeza.

Nossa última foto juntos, em seu aniversário, em 07/04/06

Antes de escrever, eu pensei se não era um tanto quanto piegas vir aqui falar dos 5 anos do falecimento de meu pai.
Não, porque eu não vim dizer que ele era o melhor pai do mundo, porque na verdade não era. Ele era um ser humano como outro qualquer, cheio de defeitos e angústias. Eu costumo dizer que ele era ótimo como tio: brincalhão, divertido, bagunceiro, sempre pronto a passear.
Também não vim aqui dizer como era nosso relacionamento. Eu vim falar em como minha vida mudou nesses últimos 5 anos. Quando eu me vi tendo que resolver velório, inventário, Imposto de Renda, eu percebi que realmente era adulta e não tinha mais volta, que dali pra frente eu teria, cada vez mais, que me virar sozinha. Depois disso, eu aprendi a não levar as coisas tão a sério e a não sofrer por pequenos problemas. Que a vida tem que ser vivida agora, não no passado ou no futuro. Eu sei que parece livro de auto-ajuda, mas até você passar por isso, você não sabe o que realmente quer dizer. Porque, de uma hora para outra, eu tive que viver sem uma das pessoas mais importantes da minha vida. E se eu sobrevivi a isso, sobrevivo a qualquer coisa. Aprendi também que, na maioria das vezes, as grandes mudanças em nossas vidas acontecem sem que nós tenhamos programado. "Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente"
Foi com esse pensamento que, exatamente no dia 06 de Junho de 2007, 1 ano depois, eu estava assinando o contrato da minha viagem para San Francisco. Porque eu sabia que você pode perder chances que não encontrará jamais, e terá a vida toda para se arrepender. Foi assim também que eu vim para a Itália (em 2007, por 3 meses) quando o Davide me chamou, porque estava apaixonada, sabia que ele era a pessoa certa, e não poderia deixar essa chance escapar. "Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz"
Depois, tudo que nós passamos, os meses separados, a decisão dele de ir ao Brasil, a complicada decisão de voltar para a Itália, não foram fáceis, mas não foram piores do que perder meu pai. Para enfrentar tudo isso eu sempre pensei que o pior, que é a morte, eu já havia superado.
Ao seguir meu marido e vir morar na Itália, eu não deixei de amar nem de sentir saudades da minha família e dos meus amigos. Mas eu acho que a pior saudade é a dos que não voltam mais (meu pai, minha avó, meu cachorro...). Porque, em tempos de internet, é fácil mandar e receber notícias, fotos, vídeos, falar e ver ao vivo. Fica até mais fácil você dizer às pessoas o quanto as ama e o quanto sente a falta delas. Mas ainda não existe um modo tão eficiente de correspondência com o além...
Mais do que saudades, eu sinto uma enorme pena por tudo que ele perdeu. Por não ter participado do casamento dos filhos e não ter conhecido pessoas tão importantes em nossas vidas: Davide, Silene, Pedro...  Por outro lado, eu sempre penso em como ele reagiria quando soubesse que eu viria morar na Itália e acho que, sinceramente, ele se deu bem nessa. Penso nos netos que ele não conhecerá, e no avô divertido que essas crianças perderam. Eu mesma não conheci uma avó e às vezes fico bem triste por isso (eu carrego uma enorme carga genética de uma pessoa que me é estranha!). Pelo menos temos dezenas de vídeos onde posso mostrar a quem não o conheceu como era a sua risada, o jeito de falar, o jeito de arrumar os óculos.
Ainda mais triste é pensar em como eu mudei nesses 5 anos, mas será que, sem a perda dele, tudo isso teria acontecido?

1989 - Meu pai em momento Zé Graça

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eleições

Se tem uma coisa que me incomoda muito hoje em dia é essa coisa de um mundo dividido em dois: bem e mal, feio e bonito, Ocidente e Oriente, esquerda e direita, Comunismo e Capitalismo.
Meu Deus, isso acabou há, pelo menos, 22 anos!!
Mas aqui, bem... aqui no Velho Mundo, eles ainda se chamam de comunistas e fascistas! Em pleno século XXI!!
Acabamos de passar pelas eleições municipais e a coisa é realmente absurda. A atual prefeita de Milão, Letizia Moratti, candidata a reeleição, é do partido de Berlusconi. Entre tantos outros candidatos, passou para o segundo turno o candidato da esquerda, ou comunista, Giuliano Pisapia, que saiu vencedor. Ah, e o terrorismo quando perceberam que a esquerda estava vencendo? Berlusconi chegou a usar a RAI, canal do governo, ou seja, pago com o dinheiro público, para dizer que Milão iria se tornar a "nova Stalingrado". Ahn??!?!?
A direita colocava cartazes, próximos a bairros de árabes, dizendo que a esquerda pretende construir a maior Mesquita da Europa em Milão: "E se fosse no seu bairro?". Como se uma Mesquita fosse um presídio ou uma usina nuclear. E depois ainda reclamam que os árabes são preconceituosos, terroristas... Mas onde começa o preconceito?
Diziam também que, com a esquerda, haveria mais imigrantes. Desculpe, mas é o município ou o governo federal que dá autorização a um imigrante para permanecer no país? E as levas de líbios que desembarcam na ilha de Lampedusa, no sul da Itália, todos os dias? É o prefeito de Milão que autoriza a entrada deles? Além do mais, só tem imigrantes aqui porque vocês ricos deram trabalho a eles, trabalhos que os italianos não se sujeitam mais a fazer. Na hora de trabalhar pra vocês, eles são ótimos, mas depois vocês querem que eles se escondam como ratos e não baguncem a sua cidade? Ah, me poupe, né?
Fui obrigada ainda a escutar que, em nome dos valores (éticos, morais, familiares), deveria-se votar na candidata de direita. Valores??  Desde quando Berlusconi conhece um valor que não seja o do dinheiro? Um velho depravado, que se pensa acima de todas as leis, vai querer falar de valores?
Na minha opinião, a esquerda venceu porque as pessoas estão cansadas do papelão que ele faz a Itália passar perante os outros países. Milão é um cidade emblemática em muitos sentidos: é onde nasceu o fascismo e onde Berlusconi cresceu politicamente. Perder seus candidatos históricos significa alguma coisa, não?
No fim a gente faz gozação, dizendo que estamos já estudando russo e abrindo mão de alguns pertences em nome do comunismo, mas a verdade é que político é tudo igual. Ultimamente o que temos visto, em todo o mundo, é que tanto um lado quanto o outro, só quer aproveitar as vantagens que o poder oferece, sem se lembrar que foram colocados ali para defender os direitos e vontades de seus eleitores. Por conta disso, no primeiro turno, Davide não votou nem na direita, nem na esquerda. Ele, que cresceu numa família de direita e estudou Ciências Políticas em uma universidade "fascista", votou num partido que pregava que não se deve polarizar a disputa política dessa forma, algo como a Marina Silva nas nossas eleições presidenciais. Já no segundo turno ele decidiu não votar, por não acreditar em nenhum dos dois candidatos. Porque aqui, como em uma verdadeira democracia, as pessoas não são obrigadas a votar (alô Brasil!).

"Eles cederam à imigração e agora vivem em reservas"
Como se os imigrantes na América viessem de outro mundo, não da Europa


domingo, 22 de maio de 2011

Frutas

Minha fruteira, transbordando de sabores
Esta semana cheguei da feira contentíssima.
A feira está explodindo de cores e perfumes. Pêssegos, nectarinas, morangos e cerejas a 2€ o quilo!
O Inverno é um período tão triste, tão triste, que a fruta da estação é a maçã (frutinha sem graça, pra mim). Ou então, um pouquinho melhor, de mexericas. Aí a gente acaba caindo no chocolate, por falta de opção mesmo.
Mas agora que o chocolate está sumindo dos supermercados por causa do calor, não nos resta outra opção que comer todas essas frutas deliciosas!
Isto é mais um ponto de aprendizado cultural. Quando o morango começou a aparecer na feira, há 2 meses, eu queria comprar e o Davide dizia que não, que ainda era cedo e a fruta não estaria boa. Agora, no auge da Primavera, o morango é tão doce que nem precisa de açúcar. Ok, no Brasil também tem estação certa para algumas frutas, mas outras estão sempre na banca, como melão, abacaxi, mamão, abacate ou maracujá. Até mesmo o morango, ultimamente, tem aparecido na feira quase o ano todo.
O mesmo acontece com as verduras. No Inverno não restava muita opção, mas agora vemos favas, ervilhas, rabanetes e rucola por todo lado.
É preciso aprender a época certa de fazer certas receitas e não adianta ter vontade de pêssego no Natal, porque o único disponível é pêssego em calda!
Também é preciso aprender a conviver com a saudade das nossas frutas: jaboticaba, manga, maracujá, abacaxi... Manga é tão cara que eu nunca tive coragem de comprar, ainda mais sabendo que terá gosto de congelada. Abacaxi, pra comer, só comprei uma vez. Nas outras fiz suco. Ele é mais ácido e não tem um sabor forte, parece um pouco aqueles sucos artificiais. Outra fruta que encontro por aqui é o avocado, aquele menorzinho, mas uso só pra fazer guacamole, porque comer puro não dá, não tem gosto de nada.
E aí a gente tem que ir se adaptando: adoro nectarinas, mas sinto saudades daquela jabuticaba docinha que explode na boca.

sábado, 14 de maio de 2011

Noite Tropical


Sábado passado fizemos a "inauguração" do nosso terraço. Sim, inauguração, porque ele ficou abandonado durante todo o Inverno.
Para quem não sabe, temos um terraço de 11m², que acomodou, com folga, 10 pessoas sentadas ao redor de uma mesinha de jardim.
Para a "festa", convidamos os colegas de trabalho do Davide. E o tema era "Noite Tropical", com muita comida brasileira, claro.
Aproveitei a ocasião para descongelar a massa de pastel e testar meus dotes culinários. A noite começou com torta de legumes (a mesma receita já postada aqui no site) e salpicão de frango; depois mandioca frita e pastel de carne e queijo. Infelizmente a sobremesa não foi por minha conta, já que as meninas fizeram questão de trazer cheesecake e bolo de laranja. Ah, e fizemos também uma mega batida de coco e algumas caipirinhas.
O pessoal ficava me chamando pra sentar lá fora e eu não saía da cozinha. Mas a verdade é que eu estava adorando ficar ali, preparando todas aquelas novidades, e o pessoal elogiando.
O saldo foi uma noite com temperatura agradável e muito divertida, mas o que mais me deu prazer mesmo foi comer meu pastelzinho.
Pra completar, domingo foi Dia das Mães aqui também, e convidei minha sogra e meu cunhado para almoçar aqui (meu sogro foi almoçar com a nonna no lago). Já no sábado preparei um lombo assado e, no domingo de manhã, fiz um brigadeirão. De entrada servi alguns pastéis que sobraram e um pouco de salpicão. Tudo muito elogiado também.
Como toda cozinheira, odeio a bagunça que fica na cozinha depois. Mas nem isso me tira o prazer de cozinhar, ainda mais quando é pra mostrar tudo de bom que vem da minha terra.

Queria finalizar este post com uma homenagem à minha avó, Elora, a melhor cozinheira que eu já conheci. Eu vou carregar pra sempre o arrependimento em ter provado tarde demais o seu bolinho de bacalhau. Mas eu nunca vou esquecer do pão-de-ló de laranja com aquele "açuquinha" em cima que ninguém consegue fazer igual, nem do enrolado de presunto e queijo, ou do canudinho recheado de coco que ela me deixava "ajudar" a fazer. Imaginem como era ser cozinheira num tempo em que não existia liquidificador ou batedeira!
Quando eu era criança, sempre diziam que eu tinha o narizinho dela, mas hoje eu vejo que a genética foi muito além disso.

Uma das mais lindas fotos da minha avó com meu pai e minhas tias