quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Sicília

Taormina

Tenho vergonha de dizer que já faz 1 mês que voltamos da nossa viagem à Sicília e ainda não escrevi no blog. Mas com tanta coisa acontecendo, o blog acaba mesmo ficando em segundo plano.
A Sicília é um pouco daquela Itália que habita o imaginário das pessoas em todo mundo: belas paisagens, boas comidas, mar azul, ruazinhas estreitas, roupas estendidas na varanda, máfia. Sim, porque a máfia, como a conhecemos e como se espalhou por todo o mundo, nasceu na Sicília, logo após a reunificação da Itália, como forma de protesto. Mas para quem passa apenas uns dias na região, não é possível perceber a influência da máfia, assim como para quem, como eu, vive aqui.
Desde que cheguei na Itália tinha esse sonho de conhecer a Sicília, mas por estar longe de Milão, não era possível ir em um fim de semana prolongado. Com a vinda da minha mãe, decidimos tirar 1 semana de férias e viajar com ela para um lugar que, nem eu, nem ela conhecíamos. Pensando na Sicília como uma ilha, fica parecendo que tudo é muito perto, mas não é. Na verdade ela é a maior ilha do Mar Mediterrâneo!
Tivemos que montar um roteiro só com a parte leste da ilha, mais próxima ao continente, porque conhecer tudo, de Palermo a Catania, incluindo Taormina, Agrigento, San Vito Lo Capo, demandaria bem mais do que 1 semana.
Desembarcamos em Catania, pegamos o carro e fomos direto pra Agrigento, o ponto mais longe da viagem, onde fica o Vale dos Templos. O sul da Itália foi colonizado pelos gregos no séc. VIII a.C. e ainda é possível ver muito dessa influência. O Vale dos Templos é o maior exemplo, uma região repleta de templos construídos em honra aos Deuses gregos. Alguns ainda estão completamente em pé, outros nem tanto, mas vale muito a pena a visita. É como estar na Grécia.

Templo da Concordia

No caminho, a paisagem surpreende. Esperávamos estradas mal-cuidadas mas o que encontramos foi exatamente o contrário. Apesar de ser uma ilha, a paisagem na Sicília é bastante seca. Muitos morros e montanhas secas, algumas cobertas por oliveiras. Em algumas regiões, como Pachino, as plantações de tomate tomam conta da paisagem. Em outras regiões, começam as plantações de laranja e limão (que aqui são frutas de inverno); mas por toda parte o que mais vimos foram figos da Índia. Minha mãe até ganhou alguns espinhos porque não aguentou ver todos aqueles pés carregadinhos de fruta madura!
Depois de Agrigento fomos para Ispica, Noto, Modica, Ragusa e Siracusa, todas cidadezinhas bem típicas, de arquitetura barroca. Dividíamos nossos dias entre praias e caminhadas históricas.

Praia de Calamosche
Para o fim da viagem deixamos Taormina, a praia mais famosa da região e uma das mais famosas da Itália. O mar é realmente muito bonito, mas foi um dos lugares que menos gostei. Muito cheia de turistas estrangeiros (russos principalmente), não tinha a tranquilidade das outras cidades por onde passamos. Construída num morro, a locomoção não era também muito fácil. Mas pegar o teleférico para a parte de cima da cidade e visitar o Teatro Grego, com a vista do mar ao fundo, é realmente fantástico. Seguindo indicações de um nosso amigo siciliano, fomos a uma doceria típica, muito simples mas ao mesmo tempo muito boa. Eu estava à caça de uma boa cassata siciliana, mas nem nesse dia a encontrei, provando-a uma vez só durante toda a viagem. Por ser um doce com ricota, não é comum encontrá-lo nos meses de calor, já que pode estragar muito rápido. O que tinha por toda parte era o cannolo siciliano, que não é dos meus doces preferidos. Nesta doceria mesmo provamos um recheado na hora! Ah, outra produto típico da região que está presente em todos os pratos é o pistache: pasta com pesto de pistache e camarão, torrone com pistache, granita (uma espécie de raspadinha) de pistache, entre tantos outros.

Teatro Grego e Taormina ao fundo

De Taormina fomos ao Etna, o mais alto vulcão da Europa e um dos maiores do mundo! Mas o clima não ajudou muito. Lá embaixo na praia tava sol, dia lindo, mas quando começamos a subir a montanha, de carro, entramos no meio da neblina. Quando chegamos a 1900mts de altitude, o limite máximo para carros, onde pretendíamos pegar um teleférico e ir até os 3000mts, visitar a cratera maior, percebemos que a neblina não iria facilitar as coisas. O termômetro do carro marcava 8°C mas achamos que dava para encarar, até soltei os cabelos para “esquentar” um pouco o pescoço. Grande erro. Fui a primeira a sair do carro e o vento era tão forte que mal dava pra respirar! Pra piorar, os cabelos voavam na cara e eu não via nada. Improvisei usando a canga como cachecol. O Davide não havia levado nenhum agasalho e se enrolou na canga com a bandeira do Brasil; minha mãe pegou uns lenços e enrolou a toalha de praia na cabeça, pra proteger o ouvido, e a Kimiko também se enrolou em alguns lenços e cangas. Tudo em vão, o vento era tão forte que mal conseguíamos caminhar! No fim ríamos (como no vídeo abaixo), porque era uma coisa tão absurda, jamais sentida antes, que nem sabíamos como reagir. Visitei uma cratera (não ativa, obviamente) e quando tentei subir para a próxima, o vento me empurrou com tanta força que fiquei com medo de cair e voltei correndo para o carro, seguida, alguns minutos depois, pelo resto da turma. Infelizmente não conseguimos chegar ao topo e visitar o vulcão com calma, mas com certeza essa experiência com o vento será inesquecível!

http://www.youtube.com/watch?v=-PlOGF2pN3M&feature=youtu.be

Dali fomos para Catania, última cidade do roteiro e onde ficamos só 1 noite. Como qualquer cidade grande, um pouco bagunçada, com casas velhas e mal-cuidadas, sem o mesmo charme das outras cidadezinhas que vimos antes. A melhor parte de Catania foi ter provado uma verdadeira e fantástica cassata siciliana, pra fechar a viagem com chave de ouro!

terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fogaça... fogazza??

Uma indignação do Davide me fez vir aqui escrever no blog.

Todo mundo que mora em São Paulo conhece a tradicional festa italiana de Nossa Senhora Achiropita e já comeu fogaça, certo? E todo mundo acha isso muito italiano. Mas não é.

Nós temos amigos de Norte a Sul, passando por regiões como Vêneto, Lombardia, Piemonte, Toscana, Lazio, Puglia e, finalmente, Sicília. E nenhum deles nunca ouviu falar dessa santa ou desse prato. Fogaça (ou fogazza), assim, com esse nome, não existe na Itália. Existe um tipo de pastel parecido (esse aqui embaixo) que chama Panzerotto e, segundo nossos amigos puglieses, podem existir variações dialetais, mas nada que se pareça com fogazza.

 

 

O mais parecido linguisticamente é focaccia, mas é tutta un’altra cosa. A focaccia é um pão, bem parecido com a pizza, originário da cidade de Gênova, feito com muito azeite de oliva e sal. Pode ser recheado com presunto e queijo ou coberto com queijos ou verduras, mas eu garanto que a focaccia simples é uma maravilha dos deuses. E nos perguntamos porque um pão tão simples de fazer e tão bom não tem no Brasil. Ouvi dizer que agora está chegando em alguns restaurantes, mas ainda não é muito difundido.

Fogaça é um sobrenome português, o que nos faz pensar que este nome venha de algum prato português “italianizado” no Brasil. Mas nas minhas pesquisas não achei nenhuma explicação plausível. A única coisa é que, se eu entrar no Google Itália e escrever “fogazza”, os resultados serão todos de sites brasileiros.

Aí você se pergunta: muito bem, o salgado é bom, todo mundo gosta, é só uma questão de nome, qual o problema? Por que a indignação?

Porque dois descendentes de italianos põem a sua carinha lá no jornal pra dizer que eles “escondem a receita da tradicional fogaça italiana”, mas eu queria que eles me explicassem de onde vem esse prato, que aqui na Itália não existe (não com esse nome)!!

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1132306-familia-italiana-esconde-receita-da-fogaca-da-achiropita.shtml

 

Eu sei, você vai dizer que brasileiro adapta tudo, dá um jeitinho de fazer um prato parecido, mas gostoso, que por aí as coisas funcionam assim mesmo. Tudo bem, mas não diz que é um prato típico porque não é! O problema é que as pessoas usam a etiqueta Made in Italy (não só no Brasil, mas no mundo todo) pra dizer que um prato é bom, que uma roupa é de qualidade, e muitas vezes é tudo conversa fiada.

Vou usar um exemplo no caminho inverso pra vocês verem como dá raiva. Aqui na Itália toca um raio de uma música que chama Samba de Janeiro, que é uma música eletrônica, remixada, com um tipo de trompete, e uma mocinha que fala “Samba... de Janeiro!”, uma coisa horrível que nem sei explicar. E todo mundo acha que aquilo é música brasileira, que aquilo é samba!! Você vai na festa, a galera dança toda animada e quer que você dance também, afinal, aquilo é música da sua terra, não é?

É contra esse tipo de estereótipo e enganação que eu luto, pra que ninguém chegue aqui e faça papel de besta ao pedir um prato que não existe, ou pra que ninguém chegue aí e espere escutar uma música que nao é da nossa terra.

 

www.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DBx1iclqbNyM&ei=PekgUP3ON8iYhQeJrIHACg&usg=AFQjCNHB8f5EUUHbM8itsloMcCRJ6kLeBw

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Paris

Arco do Triunfo

Só agora eu parei pra pensar e percebi que Paris nunca foi meu destino dos sonhos. Quando dizia que queria conhecer a Europa, sempre pensava na Espanha, terra dos meus bisavós, e na Inglaterra, com seus castelos, seus reis e rainhas. Tanto que pus meus pés na Europa pela primeira vez há quase 5 anos e só agora fui conhecer Paris. Tudo bem, era uma questão de tempo também, porque sabia que um fim-de-semana não bastava, precisava de um fim de semana mais que prolongado.
Mantendo nossa “tradição” de viajar nos aniversários, compramos os bilhetes para o fim de semana seguinte ao aniversário do Davide, tiramos uns dias de férias e passamos 5 dias em Paris.
Antes de qualquer comentário, quero falar sobre a (ótima) impressão que os franceses/parisienses deixaram na gente. Nada de gente arrogante e antipática, muito pelo contrário. No domingo de manhã estávamos em uma zona não muito turística tentando nos localizar no nosso mapa, quando pára um moço cheio de sacolas e oferece ajuda. Abre parênteses: o Davide estudou Francês por muitos anos, mas a falta de uso o fez esquecer e confundí-lo com o Português. Eu sei muito pouco, então tentávamos nos virar no Inglês mesmo. Fecha parênteses. O Davide apontou onde queríamos ir no mapa e ele explicou mas disse que poderíamos seguí-lo. Ele andava super rápido e nós íamos apreciando tudo, bem turista, e pensamos que ele iria embora, já que tínhamos entendido o caminho. Mas não! Ele parou na esquina, nos esperou e mostrou a rua que deveríamos seguir para chegar até a Ópera.
Outro episódio foi um problema com o bilhete do metrô. O metrô de Paris, assim como Londres, é cobrado por zonas: mais longe do centro, mais caro. Quando chegamos ao Aeroporto, compramos um bilhete válido por 5 dias, das zonas 1 a 5. No primeiro dia o bilhete não funcionava e a funcionária do metrô imprimiu um novo. Ótimo, até o dia que fomos pra Versailles e o fiscal do trem me fez notar que o bilhete era válido somente até a zona 3! Fiquei desesperada, expliquei (em Inglês) que a mulher da estação que imprimiu errado e ele disse que não cobraria multa, mas eu teria problemas pra sair da estação em Versailles (quando você tem que validar o bilhete de novo). Na estação, quando procurávamos a saída, um moço que estava no trem (e deve ter entendido o problema) me chamou e passou o bilhete dele para eu sair! Na hora de voltar para Paris, fui até a bilheteria e expliquei o problema à funcionária. Ela disse que queria me ajudar, mas não poderia imprimir outro bilhete pois teria que arcar com os custos. No fim ela liberou a catraca para eu passar e disse que se o fiscal perguntasse alguma coisa, pra eu dizer que subi em outra estação da zona 3. Falei “merci” mil vezes e, felizmente, nenhum fiscal subiu no trem. Chegando em Paris, pegamos o comprovante de pagamento do bilhete e fomos ao metrô brigar, e o moço imprimiu um novo bilhete e ainda pediu desculpas pelos problemas!
Além disso, nos restaurantes fomos sempre bem tratados, nada de garçon mal-humorado como muitos dizem. No sábado à noite fomos a um típico bistrô, indicado pelos meus colegas do escritório em Paris. Eramos os únicos estrangeiros no local e a garçonete, quando pedimos um menu em inglês, explicou tudo em italiano! Seguindo pela parte gastrônomica da viagem, todos nossos cafés-da-manhã foram de pain au chocolat; alguns jantares com carne (pra mim, claro); almoços com crepe e uma baguete espetacular na última tarde. Na Itália também tem baguete, mas a francesa é muito melhor, muito mais parecida com o saudoso pão francês. Tudo isso feito sempre, claro, com muita manteiga, produto base da cozinha francesa. Por ter uma pequena (ou nenhuma) produção de azeite, países como França e Alemanha usam muita manteiga, mesmo hoje que é muito mais fácil comprar o produto dos países vizinhos.


Café da manhã com muito Pain au chocolat

Mas, devo confessar (e vocês podem me apedrejar) que Paris não me causou um grande impacto. Não era como Londres, que eu olhava todas aquelas casinhas e me sentia em um filme, as criancinhas com uniforme à la Harry Potter. Não sei dizer, mas Paris me pareceu uma Itália mais organizada, só isso. Nada de tão especial nem tão diferente. Ok, é uma cidade muito mais viva do que Milão, com cafés, restaurantes, gente nos parques; é uma cidade bonita, claro, mas não me causou grande impacto, não vi nada de tirar o folego, nem mesmo a Torre Eiffel.
Mesmo o Louvre me decepcionou. Por ser um dos maiores museus do mundo, esperava encontrar obras famosíssimas, mas além da Mona Lisa e da Venus de Milo, nada muito famoso. Tá bom, eu sei que tô mal acostumada, que a Itália é detentora de grande parte das obras de arte mais famosas no mundo. Você vai pra Florença e vê David de Michelangelo, vê a Primavera e o Nascimento da Venus de Boticeli, vê a Medusa de Caravaggio e espera encontrar muito mais que isso no Louvre, mas não. Se você quiser ver Monet, Renoir, Matisse e outros impressionistas, tem que ir ao Musée de l’Orangerie, e nesse não tivemos tempo de ir.
Infelizmente não deu tempo de muita coisa, preferimos caminhar mais do que entrar nos lugares (à parte o dia que deixei só para o Louvre). Também fomos ao Palácio de Versalhes, que é enorme e dá bem uma idéia de como era a realeza e porque a Revolução Francesa aconteceu. Por ser um Palácio com 700 quartos, achei que daria pra ver mais do que uma dúzia de aposentos. Claro, não me decepcionei, mas esperava mais. Mas o jardim é realmente espetacular. Aliás, passamos mais tempo no jardim do que dentro do Palácio. Comemos nosso lanchinho na baguete, atravessamos o jardim inteiro (que é enorme), visitamos o Petit Trianon, residência da Maria Antonieta, e ainda deu pra tirar um cochilo no gramado.
Além disso, caminhamos muito e sempre, durante toda a viagem.


Jardins de Versailles

Ah, talvez o que tenha contribuído para que eu não me surpreendesse tanto com Paris é a globalização. Sim, ela mesma. Você anda pela Champs-Élysées e vê o que? H&M, Gap, Benetton, Sephora... Exatamente as mesmas lojas que vejo todo dia em Milão. Fomos até a primeira loja da Ladurée, doceria famosa que inventou o macaron e, o preço, o sabor, eram o mesmo da loja daqui! Acho que no passado era muito mais legal/empolgante viajar e descobrir coisas que só tinham naquele lugar, experimentar novos sabores e voltar pra casa com souvenirs que você nao encontraria em nenhum outro lugar. Hoje, até o souvenir é feito na China!

 

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Angel

 
A visita do mês foi minha grande amiga Angela que, no rol das grandes amigas, é a mais recente. Nos conhecemos no Cel Lep em 2005 e fazíamos uma espécie de competição pra ver quem tirava melhores notas. Por exemplo, ela tirava 9,6 e eu, 9,2, ou vice-versa! Nossa turma era muito divertida e criamos uma amizade muito legal com praticamente todo o grupo.
Apesar dela ser dentista, sempre conversamos muito sobre Literatura, além de cultura em geral e culinária.
Sei que meus amigos ficaram tristes quando souberam que eu viria morar na Itália, mas me lembro que a Angela foi a única que disse “Sei que será melhor pra vocês, mas fico muito triste que vocês vão embora”. Nem todo mundo consegue expressar seus sentimentos.
Em 2007, mesmo ano que fui pra San Francisco, ela passou 40 dias em Londres estudando e, claro, ficou apaixonada pela cidade. Sempre disse que gostaria de voltar, mas também queria me ver e talvez desse só uma “passadinha” em Milão. Depois de muita conversa, e de postar muitas fotos lindas de Roma, Florença, entre outras, consegui convencê-la que não se poder ir a Londres 2 vezes sem conhecer a Itália.
"Um homem que nunca esteve na Itália é consciente de sua inferioridade."
 Samuel Johnson

Melhor ainda o fato de que ela era obrigada a tirar 30 dias de uma vez, então dividimos sua viagem em 24 dias na Itália, 1 semana em Londres! Poderia ter sido melhor?
Sua aventura começou com a chegada em Milão na Sexta-feira Santa. Como já disse no ano passado, feriado aqui é só na segunda. Depois do jantar, em casa, a levamos para dar uma volta e ver um pouco da cidade à noite. Paramos em pontos estratégicos: Castello Sforzesco e Duomo; que deixam qualquer um de queixo caído.

 

Sábado cedo partimos para Veneza, esperando que o tempo ajudasse, já que a previsão não era das melhores. Estive em Veneza uma vez só, em Novembro de 2007, com chuva e frio, e esperava encontrar uma cidade ensolarada com a chegada da Primavera. Mas o clima não foi dos melhores. Sábado não chegou a chover, mas ficou nublado. Por ser Páscoa, a cidade estava ultra-mega-lotada, o que não deixou-a perder seu encanto. Terminamos nosso dia tomando um Spritz Aperol, drink típico da cidade, e voltamos para o hotel mortos de cansaço, de tanto nos perder pelas vielinhas da cidade.
Domingo prometia tempo bom, mas por volta de meio-dia começou a chover. Deixamos a Angela no Palazzo Ducale (que já conhecíamos) e corremos para a Galleria dell’Accademia, para fugir da chuva. Depois visitamos o maravilhoso Teatro della Fenice, renascido de 2 incêndios arrasadores, e à noite fomos a um concerto de câmara, com músicas de Vivaldi. Deixamos passar, mais uma vez, o passeio de gôndola. Vamos combinar que pagar 80€ pra passear debaixo de mau tempo não dá, né?
Segunda de manhã saímos cedo de Veneza e paramos em Verona, outra cidade encantadora. Para mim, um dos melhores exemplos de cidade medieval, ainda com grande parte de sua muralha a proteger o centro da cidade, que com o tempo se expandiu e cresceu para fora da muralha. O tempo abriu um pouco e até saiu o sol. Mas a Angela deu azar porque choveu o mês de Abril inteirinho, o que não é normal. Primavera é período de chuva, mas pancadas aqui e ali, não chuva o dia todo, todos os dias.
Depois de Veneza ela partiu para 10 dias em Roma e 5 dias em Florença, voltando para Milão depois. Finalmente o tempo melhorou no fim do mês, dando-a possibilidade de conhecer a cidade um pouco melhor e almoçar comigo alguns dias. No último fim de semana fomos ao Lago, que agradou-a muito também. Apesar de encontrarmos chuva mais uma vez, no domingo.
Poder dar dicas, ajudar a organizar e mostrar tanta coisa linda a uma pessoa que já me ensinou muito foi gratificante.
No último dia de Abril ela partiu para Londres, me deixando com aquela vontade de me enfiar na sua mala e desembarcar no Brasil, vontade que eu sempre fico quando alguém volta pra casa.

 

segunda-feira, 7 de maio de 2012

Ausência

Eu não queria que meu blog contasse só nossas viagens. Eu queria ter tempo pra contar mais como é a vida por aqui e como as pessoas pensam e agem diferente de nós, mas eu não tenho. Costumo brincar dizendo que a pessoa que mais me faz falta aqui na Itália é a Zeza, empregada de toda a família e que também trabalhou pra mim quando me casei.
Até o gosto pela cozinha eu perdi um pouco, pela falta de tempo. Como se sabe, empregada doméstica em países desenvolvidos é luxo para poucos. Aqui te cobram de 8€ a 10€ a hora, e a maioria das pessoas paga por 2 ou 3hs de limpeza. Como a Zeza ficava na minha casa das 9h às 17h e eu vou acreditar que alguém vai limpar bem minha casa em 3hs? Por isso, desde que comecei a trabalhar, dividimos a limpeza dos cômodos e acreditamos que, pra fazer de qualquer jeito, não precisamos pagar ninguém.
Há um mês decidimos chamar alguém para limpar, pelo menos, janelas e portas. Ela ficou 2hs em casa e limpou só as janelas (2 janelas normais e 2 portas-janelas), disse que não deu tempo de fazer 5 portas, mas limpou o fogão e lavou os pratos (eu tenho lava-louças, não precisava). Aí eu joguei a toalha e decidi que uma experiência bastava.
Agora que está começando a fazer calor e não queremos perder o fim de semana limpando a casa, pensamos em dividir a limpeza durante a semana, cada dia um cômodo. Mesmo porque, hoje o sol se pôs às 20h38, e luz é o que não falta!
Quando nos casamos e o Davide passava aspirador pela casa inteira, inclusive no banheiro, achava aquilo muito estranho, coisa de europeu preguiçoso, mas agora até eu entrei no clima! Uma das coisas que mais me causou estranheza ao chegar aqui é o fato de não ter ralo no banheiro nem na cozinha! Ou seja, não dá pra lavar! Eu prefiro lavar porque você joga água e pronto, não precisa varrer e depois passar pano. Por isso aderi ao aspirador para recolher os cabelos no banheiro ou os farelos na cozinha, depois passo pano.
Além de contar um aspecto cultural, esse post também é pra justificar porque não escrevo desde que voltei do Brasil.

segunda-feira, 12 de março de 2012

Caminhos do coração



Há muito tempo que eu saí de casa
Há muito tempo que eu caí na estrada
Há muito tempo que eu estou na vida
Foi assim que eu quis
E assim eu sou feliz
Principalmente por poder voltar
A todos os lugares onde já cheguei
Pois lá deixei um prato de comida
Um abraço amigo
E um canto pra dormir e sonhar


E aprendi que se depende sempre
De tanta muita diferente gente
Toda pessoa sempre é as marcas
Das lições diárias de outras tantas pessoas


E é tão bonito quando a gente entende
Que a gente é tanta gente
Onde quer que a gente vá
E é tão bonito quando a gente sente
Que nunca está sozinho
Por mais que pense estar


É tão bonito quando a gente pisa firme
Nessas linhas que estão
Nas palmas de nossas mãos


É tão bonito quando a gente vai à vida
Nos caminhos onde bate
Bem mais forte o coração
O coração
Ah! O coração


Não podia deixar de iniciar este post com esta música que já é praticamente minha canção de exílio.
Ao longo do ano eu escrevo sobre várias viagens, mas nenhuma é tão difícil como a do Brasil. É uma viagem que envolve uma série de sensacões, emocões, sentimentos, etc. que fica difícil sentar e pôr tudo no papel (ou na tela).
Quando compramos as passagens, em Outubro do ano passado, parecia que seriam os 4 meses mais longos da história. E na verdade foram os mais curtos. Neste meio tempo teve viagem pra Londres, Natal, Ano Novo e 20 dias com a Natasha em casa (e com ela mais 3 viagens!). E o tempo voou tanto que pareceu até que a viagem chegou rápido demais e eu queria um pouquinho mais de tempo pra me organizar. Não deu tempo de escrever um post pré-viagem, nem de preparar agenda, nem de pensar no que realmente queríamos fazer nos pouquíssimos 15 dias no Brasil (5 em Fernando de Noronha, 10 em São Paulo).
A sensação ao chegar em São Paulo é sempre a mesma: parece que eu fiquei fora por 1 semana, não 1 ano. Tudo continua muito familiar e muito igual. A Itália, Milão, minha casa e minhas coisas parecem só uma lembrança de algo que passou, até um pouco surreal.
O cheiro de umidade quando se abre a porta do avião é a primeira sensacão de reconhecimento. Um cheiro que nunca tinha sentido até morar aqui, onde todo mundo diz que o Verão é úmido, mas eles não fazem idéia do que é umidade de verdade (eu sei que toda vez que vou ao Brasil falo da umidade, mas é mais forte que eu).


No saguão do aeroporto, ficava olhando todos aqueles painéis escritos em Português, escutava as pessoas falando e pensava “estou realmente aqui?”. E mesmo depois de alguns dias no Brasil, me surpreendia às vezes ao escutar alguém falando Português, na rua, numa loja, como se ainda estivesse na Itália e fosse uma surpresa encontrar alguém falando a minha língua!
Recém saídos do avião, Davide logo comentou como é incrível que não se vê uma pessoa igual a outra. A mistura de raças é muito grande e se vê gente de todo tipo. Depois, andando pela Paulista, comentei que não só a quantidade de raças é muito grande, como também a variedade de estilos. Vê-se gente vestida de todo jeito. E isso me faz muita falta. Aqui uma mulher elegante é aquela que se veste com taileur e camisa branca; vestido longo é roupa de noite, durante o dia não se usa; tênis com meia branca aparecendo é cafona, e muitas outras coisas que renderiam um post só sobre moda.
Outra questão de “estilo” é essa coisa tão nossa de tomar suco de frutas durante as refeições. Eu demorei a notar isso aqui, que suco de frutas se bebe só no café da manhã. Mas como o Davide mesmo disse, nossa comida é diferente, e parece que o suco combina bem. Tanto que ele, com mais saudade até do que eu, pedia suco de maracujá em todas as refeições. Também não se toma um cocktail durante as refeições (tipo caipirinha, batida, etc). Na hora da comida, só água, vinho ou, no máximo, uma coca-cola.


Claro que tem sempre as más impressões também, como o trânsito completamente louco. Davide sempre perguntou “porque vocês mudam tanto de faixa??”. E ele tem razão. Não só mudamos muito de faixa como buzinamos muito também. Às vezes, aqui em Milão, falo pra ele buzinar e ele responde “buzinar vai mudar alguma coisa?” e muitas vezes eu vejo que ele tem razão mesmo. O cara que está estacionando com dificuldade, só vai ficar nervoso e demorar ainda mais; alguém que virou sem dar seta, já foi, buzinar não altera nada; num cruzamento travado, buzinar não vai fazer com que os carros sumam da sua frente; e por aí vai.
Em uma de nossas muitas idas ao cartório (afinal, férias serve também para resolver os problemas), ele me perguntou se o Brasil era sempre bagunçado assim ou se as coisas tinham piorado. Respondi que foi sempre assim mesmo, ele que já se esqueceu e se readaptou à organizacão européia (mesmo a Itália não sendo lá muito organizada).
Foi também no cartório que ele me perguntou onde escondemos nossos idosos, já que todo mundo que trabalhava por ali era bem jovem, recém-saído da adolescência. Na hora achei engraçado, mas é verdade. No Brasil se vê muito mais gente jovem trabalhando do que por aqui. E a resposta é simples: nossos velhinhos se aposentam mais cedo porque também começaram a trabalhar mais cedo. Eu vejo o pessoal fazendo contas e reclamando que vai se aposentar com quase 70 anos, mas pergunta quem começou a trabalhar aos 16 anos, como eu?


Outra má impressão foi o aumento de preços. Gente, como tudo está caro!! Algumas coisas dobraram de preço em 1 ano! Tanto que até desanimei um pouco de fazer muitas compras, acabei voltando só com 2 Melissas e, claro, muitas comidinhas e docinhos.
Antes da viagem, eu fiquei pensando que ficar tanto tempo longe de casa era como uma paixão adormecida. Sabe aquela coisa que todo mundo já ouviu “com o tempo você esquece”? Então, depois de 1 ano, você começa a se esquecer de como eram certas coisas, começa a já não sentir tanta falta de outras, e reencontrar e reavivar tudo isso em 15 dias é realmente muito difícil. A volta pra nova casa é sempre difícil. As pessoas podem dizer “ah, mas acabou de voltar, tá reclamando?”. Mas a saudades na volta é muito pior, é como reacender uma paixão e ter que esquecer de novo.



P.S. Não vou ficar aqui descrevendo cada reencontro, certo? Só digo que minha vontade era de pegar cada uma dessas pessoas que encontrei nas minhas férias e trazer comigo!
P.S. Peço desculpas aos amigos que não apareceram nas fotos mas, não por isso, menos importantes!




quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Natasha

1996
Minha família sempre foi pequena. Não conheci uma avó e o outro avô faleceu quando eu tinha 4 anos. Por muitos anos fomos as únicas crianças da família. Minhas tias, irmãs do meu pai, não tiveram filhos e meu tio, irmão da minha mãe, casou-se quando eu tinha 2 anos.
Tive que aceitar as brincadeiras de menino do meu irmão e sempre reclamava que não tinha primos para brincar. Então foi aquela alegria quando meu tio anunciou que ia ser pai e o Igor chegou quando eu tinha 7 anos. Tudo bem, eu continuei jogando bola e brincando de carrinho, mas ele também aceitava brincar de casinha de vez em quando com a única prima.
Uma noite, quando eu tinha uns 11 anos, enquanto brincava na sala com o Igor, meu tio me pegou no colo e me disse que queria uma menininha como eu. Alguns meses depois, Igor anunciou num jantar que iria ganhar um irmãozinho, e poucos meses depois a palavra certa passou a ser irmãzinha.
Tudo bem que a Natasha chegou quando eu já tinha 12 anos e minhas costas doíam de ficar muito tempo agachada em frente à casa da Barbie. Mas ela sempre foi minha bonequinha, mesmo sendo uma boneca um pouco maluca, sempre descabelada correndo pela casa, não se comportando muito como “menininha”.
Eu fui crescendo e ela chorava “mãe, a Teté não quer mais brincar comigo”, mas a adorava mesmo assim. Aliás, quando entrei na adolescência, passei a ter vergonha do apelido de criança, Teté, e comecei a pedir que me chamassem pelo nome. Meus tios aceitaram a mudança, minha mãe também, usando o apelidinho só em casa, mas a Natasha não, sempre me chamou de Teté em qualquer lugar e a verdade é que eu nem ligo muito, porque ela é e sempre será a minha menininha.


2001
Eu virei adulta e ela adolescente, nossas vidas e nossos interesses eram bem diferentes e nos afastamos um pouco. Mas agora ela também está virando adulta e a distância nos aproximou de novo. Desde que cheguei aqui, foram muitos emails trocando novidades daqui e de lá.
Quando ela aceitou meu convite para passar 20 dias em casa, aqui na Itália, foi como realizar um sonho. Desde a primeira vez que vim pra cá, sempre pensei em trazer meus primos, levá-los pra patinar no gelo, ver a neve.
Destes 20 dias, muitos ela ficou sozinha em casa, mas eu fiz o que pude para mostrar a ela um pouco do que a Itália tem de mais belo e de como é a vida aqui.
Vê-la encantada, tirando mil fotos de Roma, não tem preço. Roma é uma das minhas cidades favoritas no mundo e apresentá-la a quem ainda não a conhece e contar um pouco da sua história me dá um imenso prazer. Piazza Navona, Fontana di Trevi, Coliseu, Vaticano, Panteão, Pietà foram pouco pra tanta foto. De volta pra Milão, foi hora de fazer compras, ver a Duomo, falar de maquiagem.


Coliseu - 2012
Mais um fim de semana e foi hora de levá-la para o lago e, de lá, para uma estação de esqui bem no meio dos Alpes. Ela até tentou o snowboard, mas a verdade é que passou a maior parte do tempo sentada na neve. Meus dedos do pé praticamente congelaram, mas o que a gente não faz pra ver uma “criança” feliz?


 
Novamente de volta à Milão e só faltava um fim de semana. E agora, Veneza ou Florença? Para espanto de muitos, ela preferiu a capital do Renascimento, a esta altura já fã de Michelangelo Buonarroti. Ver a estátua do David mais uma vez só me confirmou o que eu sempre pensei, que ele é uma das coisas mais lindas e perfeitas que um ser humano já produziu. Tudo bem que a Natasha estava influenciada pelos meus comentários, mas ela também teve a sensação de que ele ia virar a cabeça, descer do pedestal e sair andando pelo museu, tamanha perfeição.


 
Dezenas de igrejas, uma passadinha rápida em Pisa, algumas fotos clichês com a torre-símbolo da Itália, bisteca alla fiorentina, sorvete, azeite toscano e a viagem foi chegando ao fim. Os 20 dias passaram como previstos, nem ficou aquela sensação que poderíamos ter feito mais e não deu tempo. Também não chorei no aeroporto (até porque, quando as pessoas partem, elas vão para um lugar onde eu gostaria de ir também) porque sei que daqui 15 dias nós estaremos juntas de novo. Mas quando entrei em casa e ela não estava lá, me esperando, me deu uma tristeza... Sabe aquela coisa de dizer que ninguém perde o que não tem? Então, eu a tive só pra mim por 20 dias e agora ficou essa sensação de vazio.
Mas no fim de tudo o bom mesmo é o prazer de mais um sonho realizado, é ver que as coisas são muito mais simples do que imaginamos e que ela sempre vai poder voltar e passar umas férias na casa da prima que foi morar na Itália.


Renata ou Natasha? Só o ano da foto resolve a dúvida ;)

P.S. Aliás, muito cuidado com o que se pede, porque meu tio pediu uma menina como eu e a Natasha, quando criança, era minha cópia. Até ela se confundia quando via minhas fotos. Hoje já não acho que somos tão parecidas assim, mas muita gente ainda se confunde.