terça-feira, 7 de agosto de 2012

Fogaça... fogazza??

Uma indignação do Davide me fez vir aqui escrever no blog.

Todo mundo que mora em São Paulo conhece a tradicional festa italiana de Nossa Senhora Achiropita e já comeu fogaça, certo? E todo mundo acha isso muito italiano. Mas não é.

Nós temos amigos de Norte a Sul, passando por regiões como Vêneto, Lombardia, Piemonte, Toscana, Lazio, Puglia e, finalmente, Sicília. E nenhum deles nunca ouviu falar dessa santa ou desse prato. Fogaça (ou fogazza), assim, com esse nome, não existe na Itália. Existe um tipo de pastel parecido (esse aqui embaixo) que chama Panzerotto e, segundo nossos amigos puglieses, podem existir variações dialetais, mas nada que se pareça com fogazza.

 

 

O mais parecido linguisticamente é focaccia, mas é tutta un’altra cosa. A focaccia é um pão, bem parecido com a pizza, originário da cidade de Gênova, feito com muito azeite de oliva e sal. Pode ser recheado com presunto e queijo ou coberto com queijos ou verduras, mas eu garanto que a focaccia simples é uma maravilha dos deuses. E nos perguntamos porque um pão tão simples de fazer e tão bom não tem no Brasil. Ouvi dizer que agora está chegando em alguns restaurantes, mas ainda não é muito difundido.

Fogaça é um sobrenome português, o que nos faz pensar que este nome venha de algum prato português “italianizado” no Brasil. Mas nas minhas pesquisas não achei nenhuma explicação plausível. A única coisa é que, se eu entrar no Google Itália e escrever “fogazza”, os resultados serão todos de sites brasileiros.

Aí você se pergunta: muito bem, o salgado é bom, todo mundo gosta, é só uma questão de nome, qual o problema? Por que a indignação?

Porque dois descendentes de italianos põem a sua carinha lá no jornal pra dizer que eles “escondem a receita da tradicional fogaça italiana”, mas eu queria que eles me explicassem de onde vem esse prato, que aqui na Itália não existe (não com esse nome)!!

http://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/1132306-familia-italiana-esconde-receita-da-fogaca-da-achiropita.shtml

 

Eu sei, você vai dizer que brasileiro adapta tudo, dá um jeitinho de fazer um prato parecido, mas gostoso, que por aí as coisas funcionam assim mesmo. Tudo bem, mas não diz que é um prato típico porque não é! O problema é que as pessoas usam a etiqueta Made in Italy (não só no Brasil, mas no mundo todo) pra dizer que um prato é bom, que uma roupa é de qualidade, e muitas vezes é tudo conversa fiada.

Vou usar um exemplo no caminho inverso pra vocês verem como dá raiva. Aqui na Itália toca um raio de uma música que chama Samba de Janeiro, que é uma música eletrônica, remixada, com um tipo de trompete, e uma mocinha que fala “Samba... de Janeiro!”, uma coisa horrível que nem sei explicar. E todo mundo acha que aquilo é música brasileira, que aquilo é samba!! Você vai na festa, a galera dança toda animada e quer que você dance também, afinal, aquilo é música da sua terra, não é?

É contra esse tipo de estereótipo e enganação que eu luto, pra que ninguém chegue aqui e faça papel de besta ao pedir um prato que não existe, ou pra que ninguém chegue aí e espere escutar uma música que nao é da nossa terra.

 

www.youtube.com%2Fwatch%3Fv%3DBx1iclqbNyM&ei=PekgUP3ON8iYhQeJrIHACg&usg=AFQjCNHB8f5EUUHbM8itsloMcCRJ6kLeBw