Certa vez li no blog de uma amiga que durante o dia ela tinha várias idéias para escrever, mas elas sempre se perdiam antes que ela tivesse tempo de colocá-las no papel. Me identifiquei porque isso sempre acontece comigo. Este post está na minha cabeça há um tempão, mas nunca conseguia terminá-lo. Vamos a ele.
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Vivendo aqui há mais de um ano e tendo trabalhado em 2 empresas diferentes, me sinto mais à vontade para falar um pouco como funciona o mercado de trabalho aqui.
O que me motivou a escrever sobre isto foi o constante questionamento das pessoas no Brasil sobre as férias. Então vou começar pela melhor parte.
Felizmente as férias não funcionam como no Brasil. Pode variar um pouco de acordo com o contrato, mas o normal é que, a cada mês trabalhado, o funcionário tenha direito a 2 dias úteis de férias. Isso quer dizer que ao final de 12 meses, o funcionário tem 24 dias úteis, ou 5 semanas inteiras.
O bom disso é que se você quer emendar um feriado ou precisa resolver um problema pessoal, é só usar as férias. Claro que tudo isso tem que ser acordado previamente com o superior, mas eles não costumam criar caso. A única ressalva é que o funcionário deve ter, pelo menos, 10 dias úteis (ou 2 semanas) seguidos de férias.
Eu, que sempre “piquei” minhas férias porque gosto de viajar, estou adorando tudo isso. É um sistema muito mais flexível que te permite aproveitar mais. Por exemplo, meu aniversário será em uma quinta-feira e já acertamos que vamos pegar 2 dias de férias, fazer um fim de semana prolongado, e viajar para comemorar. A parte ruim disso tudo é que só posso tirar 2 semanas, em Fevereiro, para ir ao Brasil. O lado bom é que quando minha mãe (ou qualquer outra pessoa) vier me visitar, posso tirar uns dias e dar um pouco mais de atenção.
Portanto, quando eu disser que estou de férias, não se assustem e perguntem “Como, se você começou a trabalhar há pouco tempo?”
Outro ponto meio complicado é que não existe uma lei única para todos os trabalhadores (como a nossa CLT), cada categoria tem a sua. Eu, que trabalho em banco, sou contratada pelas leis de Crédito. Tem também Comércio, Farmacêutica, Metal mecânica... No total são quase 400 tipos de contratos diferentes!! A Itália é o país com maior tipologia de contratos de trabalho! Se por um lado isto garante uma melhor cobertura (inclusive jurídica) das profissões, por outro gera um sentimento de perda devido à quantidade de leis, artigos e regulamentos.
Além disso, o contrato pode ser por projeto, a tempo determinado (renovável) ou a tempo indeterminado. O sonho de todo trabalhador é ter o contrato a tempo indeterminado, que dá mais segurança e estabilidade.
Os sindicatos aqui ainda são muito fortes e as leis trabalhistas estão muito mais do lado do trabalhador. Se você tem contrato a tempo indeterminado, é praticamente impossível ser demitido, a menos que a empresa vá à falência ou que a tua posição deixe de existir. Isso não é necessariamente bom.
Eu considero o mercado de trabalho aqui muito conservador. As pessoas ainda têm aquela idéia que um emprego é pra vida toda, e que ser demitido é uma vergonha. Existe uma espécie de ciclo vicioso: o funcionário não se esforça porque sabe que não será demitido; a empresa não se preocupa em motivar o funcionário porque sabe que não é fácil arrumar outro emprego a tempo indeterminado; mesmo que o empregado não esteja feliz, ele não procura outro emprego porque tem medo de sair da zona de conforto. E entram neste ciclo vicioso!
Um outro ponto que gera esta “preguiça” é a variação salarial. Entre um empregado e seu gerente / diretor não há uma diferença grande de salário. Se no Brasil um funcionário ganha R$ 3000,00 e o chefe ganha R$ 20.000,00, aqui o funcionário ganha 1000€ e o chefe, 4000€. Isto não gera esta grande diferença social que vemos no Brasil, mas também desestimula um empregado a crescer. Muitos pensam “pra que me esforçar e ter mais responsabilidades sem ter um grande aumento de salário?”.
Quando se fala em salário, é normal que digam o ganho anual bruto mas o mensal, líquido. Usando o exemplo acima, diriam que o ganho anual é de 20.000€. Dividido em 13 pagamentos (ou 14 quando há bônus), menos os impostos, daria 1000€.
Sim, o pagamento de imposto de renda aqui é bem maior que no Brasil, e o único consolo é que o dinheiro é bem aplicado em serviços à população: saúde, ensino (do infantil à universidade), segurança pública.
A lista de benefícios oferecidos pela empresa também não é tão extensa como no Brasil. Vale alimentação ainda é de papel, em valores irrisórios (de 2€ a 5€), não existe vale-transporte nem assistência médica. Em pouquíssimos casos há o que eles chamam de “caixa assistência”. O empregado pode utilizar um médico particular e solicitar reembolso de 80%, que leva meses para ser pago.
Mas como eu disse, já que o governo oferece bons serviços públicos, a empresa não se preocupa em oferecer todos estes benefícios. Poderia explicar também como funcionam os serviços públicos, mas prefiro dividir os assuntos e deixá-los para um outro post.
Resumindo, acho que um mercado mais “agressivo” como o brasileiro é mais saudável. As pessoas têm medo de serem demitidas de um dia a outro, mas por outro lado o empregador sabe que se não oferecer uma boa retribuição ao funcionário, outra empresa também pode levá-lo de um dia a outro.
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| "Tio, o que é um trabalhador atípico? É um que tem um contrato fixo!" |










