segunda-feira, 6 de junho de 2011

Tocando em Frente

Na manhã de 06 de Junho de 2006, enquanto me vestia para trabalhar, pensei "Nossa, amanhã vai fazer 20 anos que o vô morreu!". Ao voltar do almoço, recebi a notícia que meu pai, seu filho, havia falecido da mesma maneira: na rua, de enfarto.
Daquele dia eu me lembro da amiga que me levou pra casa, da que passou a noite comigo, da que deixou o bebê em casa para me dar um abraço, dos amigos que ligavam o tempo todo oferecendo qualquer tipo de ajuda (material, emocional, espiritual), dos que deixaram de trabalhar para estar lá na hora do enterro, das pessoas que eu não esperava, mas apareceram, até da amiga que não foi porque eu esqueci de avisar, mas que estaria lá com certeza.

Nossa última foto juntos, em seu aniversário, em 07/04/06

Antes de escrever, eu pensei se não era um tanto quanto piegas vir aqui falar dos 5 anos do falecimento de meu pai.
Não, porque eu não vim dizer que ele era o melhor pai do mundo, porque na verdade não era. Ele era um ser humano como outro qualquer, cheio de defeitos e angústias. Eu costumo dizer que ele era ótimo como tio: brincalhão, divertido, bagunceiro, sempre pronto a passear.
Também não vim aqui dizer como era nosso relacionamento. Eu vim falar em como minha vida mudou nesses últimos 5 anos. Quando eu me vi tendo que resolver velório, inventário, Imposto de Renda, eu percebi que realmente era adulta e não tinha mais volta, que dali pra frente eu teria, cada vez mais, que me virar sozinha. Depois disso, eu aprendi a não levar as coisas tão a sério e a não sofrer por pequenos problemas. Que a vida tem que ser vivida agora, não no passado ou no futuro. Eu sei que parece livro de auto-ajuda, mas até você passar por isso, você não sabe o que realmente quer dizer. Porque, de uma hora para outra, eu tive que viver sem uma das pessoas mais importantes da minha vida. E se eu sobrevivi a isso, sobrevivo a qualquer coisa. Aprendi também que, na maioria das vezes, as grandes mudanças em nossas vidas acontecem sem que nós tenhamos programado. "Penso que cumprir a vida seja simplesmente compreender a marcha e ir tocando em frente"
Foi com esse pensamento que, exatamente no dia 06 de Junho de 2007, 1 ano depois, eu estava assinando o contrato da minha viagem para San Francisco. Porque eu sabia que você pode perder chances que não encontrará jamais, e terá a vida toda para se arrepender. Foi assim também que eu vim para a Itália (em 2007, por 3 meses) quando o Davide me chamou, porque estava apaixonada, sabia que ele era a pessoa certa, e não poderia deixar essa chance escapar. "Cada um de nós compõe a sua história, cada ser em si carrega o dom de ser capaz, e ser feliz"
Depois, tudo que nós passamos, os meses separados, a decisão dele de ir ao Brasil, a complicada decisão de voltar para a Itália, não foram fáceis, mas não foram piores do que perder meu pai. Para enfrentar tudo isso eu sempre pensei que o pior, que é a morte, eu já havia superado.
Ao seguir meu marido e vir morar na Itália, eu não deixei de amar nem de sentir saudades da minha família e dos meus amigos. Mas eu acho que a pior saudade é a dos que não voltam mais (meu pai, minha avó, meu cachorro...). Porque, em tempos de internet, é fácil mandar e receber notícias, fotos, vídeos, falar e ver ao vivo. Fica até mais fácil você dizer às pessoas o quanto as ama e o quanto sente a falta delas. Mas ainda não existe um modo tão eficiente de correspondência com o além...
Mais do que saudades, eu sinto uma enorme pena por tudo que ele perdeu. Por não ter participado do casamento dos filhos e não ter conhecido pessoas tão importantes em nossas vidas: Davide, Silene, Pedro...  Por outro lado, eu sempre penso em como ele reagiria quando soubesse que eu viria morar na Itália e acho que, sinceramente, ele se deu bem nessa. Penso nos netos que ele não conhecerá, e no avô divertido que essas crianças perderam. Eu mesma não conheci uma avó e às vezes fico bem triste por isso (eu carrego uma enorme carga genética de uma pessoa que me é estranha!). Pelo menos temos dezenas de vídeos onde posso mostrar a quem não o conheceu como era a sua risada, o jeito de falar, o jeito de arrumar os óculos.
Ainda mais triste é pensar em como eu mudei nesses 5 anos, mas será que, sem a perda dele, tudo isso teria acontecido?

1989 - Meu pai em momento Zé Graça

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Eleições

Se tem uma coisa que me incomoda muito hoje em dia é essa coisa de um mundo dividido em dois: bem e mal, feio e bonito, Ocidente e Oriente, esquerda e direita, Comunismo e Capitalismo.
Meu Deus, isso acabou há, pelo menos, 22 anos!!
Mas aqui, bem... aqui no Velho Mundo, eles ainda se chamam de comunistas e fascistas! Em pleno século XXI!!
Acabamos de passar pelas eleições municipais e a coisa é realmente absurda. A atual prefeita de Milão, Letizia Moratti, candidata a reeleição, é do partido de Berlusconi. Entre tantos outros candidatos, passou para o segundo turno o candidato da esquerda, ou comunista, Giuliano Pisapia, que saiu vencedor. Ah, e o terrorismo quando perceberam que a esquerda estava vencendo? Berlusconi chegou a usar a RAI, canal do governo, ou seja, pago com o dinheiro público, para dizer que Milão iria se tornar a "nova Stalingrado". Ahn??!?!?
A direita colocava cartazes, próximos a bairros de árabes, dizendo que a esquerda pretende construir a maior Mesquita da Europa em Milão: "E se fosse no seu bairro?". Como se uma Mesquita fosse um presídio ou uma usina nuclear. E depois ainda reclamam que os árabes são preconceituosos, terroristas... Mas onde começa o preconceito?
Diziam também que, com a esquerda, haveria mais imigrantes. Desculpe, mas é o município ou o governo federal que dá autorização a um imigrante para permanecer no país? E as levas de líbios que desembarcam na ilha de Lampedusa, no sul da Itália, todos os dias? É o prefeito de Milão que autoriza a entrada deles? Além do mais, só tem imigrantes aqui porque vocês ricos deram trabalho a eles, trabalhos que os italianos não se sujeitam mais a fazer. Na hora de trabalhar pra vocês, eles são ótimos, mas depois vocês querem que eles se escondam como ratos e não baguncem a sua cidade? Ah, me poupe, né?
Fui obrigada ainda a escutar que, em nome dos valores (éticos, morais, familiares), deveria-se votar na candidata de direita. Valores??  Desde quando Berlusconi conhece um valor que não seja o do dinheiro? Um velho depravado, que se pensa acima de todas as leis, vai querer falar de valores?
Na minha opinião, a esquerda venceu porque as pessoas estão cansadas do papelão que ele faz a Itália passar perante os outros países. Milão é um cidade emblemática em muitos sentidos: é onde nasceu o fascismo e onde Berlusconi cresceu politicamente. Perder seus candidatos históricos significa alguma coisa, não?
No fim a gente faz gozação, dizendo que estamos já estudando russo e abrindo mão de alguns pertences em nome do comunismo, mas a verdade é que político é tudo igual. Ultimamente o que temos visto, em todo o mundo, é que tanto um lado quanto o outro, só quer aproveitar as vantagens que o poder oferece, sem se lembrar que foram colocados ali para defender os direitos e vontades de seus eleitores. Por conta disso, no primeiro turno, Davide não votou nem na direita, nem na esquerda. Ele, que cresceu numa família de direita e estudou Ciências Políticas em uma universidade "fascista", votou num partido que pregava que não se deve polarizar a disputa política dessa forma, algo como a Marina Silva nas nossas eleições presidenciais. Já no segundo turno ele decidiu não votar, por não acreditar em nenhum dos dois candidatos. Porque aqui, como em uma verdadeira democracia, as pessoas não são obrigadas a votar (alô Brasil!).

"Eles cederam à imigração e agora vivem em reservas"
Como se os imigrantes na América viessem de outro mundo, não da Europa


domingo, 22 de maio de 2011

Frutas

Minha fruteira, transbordando de sabores
Esta semana cheguei da feira contentíssima.
A feira está explodindo de cores e perfumes. Pêssegos, nectarinas, morangos e cerejas a 2€ o quilo!
O Inverno é um período tão triste, tão triste, que a fruta da estação é a maçã (frutinha sem graça, pra mim). Ou então, um pouquinho melhor, de mexericas. Aí a gente acaba caindo no chocolate, por falta de opção mesmo.
Mas agora que o chocolate está sumindo dos supermercados por causa do calor, não nos resta outra opção que comer todas essas frutas deliciosas!
Isto é mais um ponto de aprendizado cultural. Quando o morango começou a aparecer na feira, há 2 meses, eu queria comprar e o Davide dizia que não, que ainda era cedo e a fruta não estaria boa. Agora, no auge da Primavera, o morango é tão doce que nem precisa de açúcar. Ok, no Brasil também tem estação certa para algumas frutas, mas outras estão sempre na banca, como melão, abacaxi, mamão, abacate ou maracujá. Até mesmo o morango, ultimamente, tem aparecido na feira quase o ano todo.
O mesmo acontece com as verduras. No Inverno não restava muita opção, mas agora vemos favas, ervilhas, rabanetes e rucola por todo lado.
É preciso aprender a época certa de fazer certas receitas e não adianta ter vontade de pêssego no Natal, porque o único disponível é pêssego em calda!
Também é preciso aprender a conviver com a saudade das nossas frutas: jaboticaba, manga, maracujá, abacaxi... Manga é tão cara que eu nunca tive coragem de comprar, ainda mais sabendo que terá gosto de congelada. Abacaxi, pra comer, só comprei uma vez. Nas outras fiz suco. Ele é mais ácido e não tem um sabor forte, parece um pouco aqueles sucos artificiais. Outra fruta que encontro por aqui é o avocado, aquele menorzinho, mas uso só pra fazer guacamole, porque comer puro não dá, não tem gosto de nada.
E aí a gente tem que ir se adaptando: adoro nectarinas, mas sinto saudades daquela jabuticaba docinha que explode na boca.

sábado, 14 de maio de 2011

Noite Tropical


Sábado passado fizemos a "inauguração" do nosso terraço. Sim, inauguração, porque ele ficou abandonado durante todo o Inverno.
Para quem não sabe, temos um terraço de 11m², que acomodou, com folga, 10 pessoas sentadas ao redor de uma mesinha de jardim.
Para a "festa", convidamos os colegas de trabalho do Davide. E o tema era "Noite Tropical", com muita comida brasileira, claro.
Aproveitei a ocasião para descongelar a massa de pastel e testar meus dotes culinários. A noite começou com torta de legumes (a mesma receita já postada aqui no site) e salpicão de frango; depois mandioca frita e pastel de carne e queijo. Infelizmente a sobremesa não foi por minha conta, já que as meninas fizeram questão de trazer cheesecake e bolo de laranja. Ah, e fizemos também uma mega batida de coco e algumas caipirinhas.
O pessoal ficava me chamando pra sentar lá fora e eu não saía da cozinha. Mas a verdade é que eu estava adorando ficar ali, preparando todas aquelas novidades, e o pessoal elogiando.
O saldo foi uma noite com temperatura agradável e muito divertida, mas o que mais me deu prazer mesmo foi comer meu pastelzinho.
Pra completar, domingo foi Dia das Mães aqui também, e convidei minha sogra e meu cunhado para almoçar aqui (meu sogro foi almoçar com a nonna no lago). Já no sábado preparei um lombo assado e, no domingo de manhã, fiz um brigadeirão. De entrada servi alguns pastéis que sobraram e um pouco de salpicão. Tudo muito elogiado também.
Como toda cozinheira, odeio a bagunça que fica na cozinha depois. Mas nem isso me tira o prazer de cozinhar, ainda mais quando é pra mostrar tudo de bom que vem da minha terra.

Queria finalizar este post com uma homenagem à minha avó, Elora, a melhor cozinheira que eu já conheci. Eu vou carregar pra sempre o arrependimento em ter provado tarde demais o seu bolinho de bacalhau. Mas eu nunca vou esquecer do pão-de-ló de laranja com aquele "açuquinha" em cima que ninguém consegue fazer igual, nem do enrolado de presunto e queijo, ou do canudinho recheado de coco que ela me deixava "ajudar" a fazer. Imaginem como era ser cozinheira num tempo em que não existia liquidificador ou batedeira!
Quando eu era criança, sempre diziam que eu tinha o narizinho dela, mas hoje eu vejo que a genética foi muito além disso.

Uma das mais lindas fotos da minha avó com meu pai e minhas tias

sábado, 30 de abril de 2011

Toscana


Se Roma é o Rio de Janeiro, Toscana é Minas Gerais. É aquele lugar lindo cheio de colinas e vales, onde se come bem e as pessoas são alegres e festeiras. Terra de Leonardo DaVinci, Dante Alighieri, Michelangelo, Maquiavel, Roberto Benigni e dos Medici, é uma das regiões mais ricas, cultas e belas da Itália.
A Toscana é daqueles lugares que nenhum ser humano deveria morrer sem tê-la visto. É a Itália que habita o imaginário de muita gente. É perfeitamente compreensível que muitos turistas ingleses ou americanos enlouqueçam e comprem casas ali.
Antes que eu inicie a contar minha viagem na Páscoa, sugiro alguns filmes passados na Toscana: "Sob o Sol da Toscana", "Beleza Roubada", "O Paciente Inglês" e "A Vida é Bela". Aliás, foi depois de assistir "Sob o Sol da Toscana" que Davide me disse que deveríamos marcar o casamento e me prometeu mostrar tudo o que há de mais belo em seu país. E a promessa se cumpriu no último fim de semana.
Pra mim é muito estranho que no país berço da Igreja Católica não seja feriado na Sexta-Feira Santa, e ninguém soube me explicar o porquê. Aqui é feriado na segunda, que eles chamam de Segunda-Feira do Anjo, momento da anunciação da Ressurreição.


Pois bem, nossa viagem começou no sábado e estava prevista para acabar na terça-feira, já que Davide tirou um dia de férias. Durante os 4 dias o clima não colaborou muito, sem chuvas, mas sempre nublado, cinzento.
No sábado, antes de chegarmos ao nosso destino, Gaiole in Chianti, Davide quis me mostrar uma cidadezinha próxima à Florença onde ele viveu por 4 anos, durante sua infância. O vilarejo fica sobre uma colina e a vista de lá é belíssima. A lembrança que ele tem daquele lugar é que havia sempre muitas festas.
Nosso hotel também era em um vilarejo, meio fora da cidade, em meio a vinhedos e olivais. Muito charmoso,  era dividido em várias casas. Nosso "pacote" incluía vinoterapia (imersão em uma banheira com vinho e água morna), jantar em uma Champagneria de Siena e degustação de vinhos em 2 vinícolas locais. O problema é que uma dessas vinícolas, Barone Ricasoli, pertence à família do barão que inventou o corte de vinho chamado Chianti! Foram só 4 taças, mas foi uma experiência maravilhosa, e não teve como sair sem algumas garrafas.
A Champagneria de Siena era uma graça. Aliás, Siena é uma graça, ainda mais à noite, sem hordas de turistas. Até fiquei um pouco decepcionada quando voltei no dia seguinte e vi centenas de pessoas em frente a todos os monumentos, tirando foto de tudo.
Na segunda-feira, quando o feriado estava terminando para muita gente, começou a melhor parte. Saímos do hotel e fomos pelas estradinhas de Chianti parando em várias cidadezinhas. Entre elas a medieval San Gimignano, muito linda, mas também cheia de turistas. Dormimos em Pisa, que à parte a torre, é uma cidade bem mal-cuidada. Após o jantar, fomos de carro até próximo à torre e vê-la assim, à noite, toda iluminada, parecia irreal! Parecia de gesso, algo montado assim, de propósito. Como fazem os americanos em Las Vegas.
San Gimignano vista de uma de suas 14 torres

A torre mais famosa do mundo
Na manhã de terça vimos a torre com mais calma e depois fomos para Lucca, uma cidade não muito procurada por turistas mas muito graciosa. Também bastante medieval, possui enormes muralhas onde é possível até andar de bicicleta! Depois de almoçar em uma deliciosa trattoria "sincera" (em italiano, um "ristorante sincero" é aquele honesto, para não-turistas), alugamos duas bicicletas e saímos passeando sobre as muralhas, vendo a cidade de cima, descendo apenas quando víamos algum ponto mais interessante.
Depois disso, tivemos que pegar a estrada de volta e acabou meu sonho toscano. Mas voltei pra casa agradecida de poder vê-la, assim como acontece com Roma.
Sobre as muralhas de Lucca

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Design & Amigos

Com a Primavera, chegaram também os turistas. Nunca vi a cidade tão cheia como no último fim de semana. Fila para entrar na Duomo, fila para subir ao topo da catedral, fila para tomar um sorvete, fila para tudo!
Além da Primavera, a explicação para essa invasão de turistas na cidade é o Salão de Móveis de Milão, a mais importante feira de design do mundo.
Quarta-feira fomos com nosso amigo Paolo, que é designer e desenhou estas cafeteiras lindas, ao Fuori Salone, uma série de exposições de novos designers fora do salão oficial. E claro, muito mais divertido, como tudo que é extra-oficial. Passamos a noite entrando em galpões de antigas fábricas procurando festas e objetos interessantes. E o que mais se via eram estrangeiros, até mesmo brasileiros!





Mas não foi só a cidade que foi invadida por turistas, minha casa também.
Nos últimos 2 finais de semana recebi a visita da minha amiga Ligia, que veio a trabalho, mas aproveitou a escala em Milão para me visitar e passear um pouco. E deu sorte, porque os dias estavam lindos, chegando a fazer 31C no sábado!
Com os italianos em SP, aprendi a ver a cidade com outros olhos e a buscar o que poderia ser interessante a um turista. Aqui em Milão ainda tenho um pouco essa veia turística, porque ainda estou descobrindo a cidade. Mas é interessante também mostrar um lado não muito turístico, mostrar os hábitos das pessoas que vivem aqui, coisas que não vemos quando estamos a passeios.
Por exemplo, levei-a para tomar o que considero o melhor sorvete de Milão, e que não está no circuito centro-pontos turísticos. E expliquei que, não importe a ordem que você peça os sabores, eles tem já a ordem certa de colocá-los na casquinha. Geralmente eles colocam o mais forte por baixo e o mais suave por cima. Como os vinhos, que tem ordem certa a serem degustados. E isso aprendi por que? Porque tenho um italiano que me explica!
Também fomos tomar café da manhã num bar típico Siciliano, do outro lado da cidade, bem escondido. Coisa que só quem conhece acha.
Outro ponto de estranheza para ambas as partes é o banheiro. Aqui é normal jogar o papel no vaso, e os brasileiros ficam com medo que vá entupir. Já para os italianos no Brasil, é motivo de crise jogar papel sujo no cestinho. Tanto que meu sogro não acreditou em mim e entupiu o vaso de um apartamento em Ubatuba!
Além disso tudo, certas coisas só acontecem com certos amigos.
No domingo estávamos passando de carro pelo Centro e vi uma cara conhecida, então me dei conta que era Mano Menezes! Se a Ligia não tivesse chamado "Mano!" e ele não tivesse dado "tchauzinho", não teria tido coragem de descer do carro e sair correndo pra tirar uma foto, acrescentando "Podemos tirar uma foto? Somos Corinthianas!". Já dizia meu pai que corinthiano e puxa-saco tem em todo lugar...
São essas coisas que podem até dar vergonha depois, mas na hora você nem pensa, porque tem um amigo do lado, e depois se diverte lembrando.
É por isso que não tenho amigos brasileiros aqui. As pessoas sempre me perguntam se não faço amizade com brasileiros e não acho que deva ser amiga de uma pessoa só porque dividimos a mesma nacionalidade. Na verdade a única brasileira amiga é a Fernanda, que eu já conhecia no Brasil e faz parte da família.
Eu sinto falta dos meus amigos brasileiros, daquelas pessoas que eram minhas amigas porque tínhamos afinidades, não porque simplesmente morávamos na mesma cidade ou estudávamos na mesma escola.
Sinto saudades das risadas de muitos deles, de conversar sobre cinema ou literatura, dividir novas receitas, relembrar o que passamos juntos e organizar jantares temáticos. Sinceramente acho muito mais fácil encontrar amigos italianos que compartilhem os mesmos gostos do que fazer amizade com alguém que também sinta falta do maracujá e do churrasco, do Reveillon na praia e da simpatia no atendimento ao cliente. Depois que comentarmos as nossas saudades, o que sobra de assunto?

Eu, Ligia e a Duomo. Parece montagem, mas não é.

Eu e Mano

Mano e Ligia

quarta-feira, 30 de março de 2011

Seção Mandioca


Quando você mora fora do seu país, a primeira coisa que descobre é onde ficam as lojinhas de produtos étnicos. Logo que cheguei a Fernanda me ensinou o caminho da Plaza Latina. Uma lojinha pequena com 90% de produtos brasileiros e os outros 10%, do resto da América Latina.
Na primeira vez em que fui, voltei contente com latas de leite condensado, palmito, paçoquinha, doce de banana, suco de maracujá, azeite de dendê e leite de coco. Mas ainda faltava a mandioca. E o pastel.
Graças ao Facebook, descobri que havia um mercadinho atrás da Stazione Centrale, próximo aonde trabalhava na época, que talvez tivesse mandioca. Mais do que depressa fui lá conferir e não é que tinha mesmo? O Kathay é chinês e tem vários produtos asiáticos e sul-americanos. Bem maior que o outro mercado, alguns preços também são melhores. Quando vou lá, não resisto e volto sempre com mais de 1kg de mandioca! O problema é descascar, já que em SP comprava já descascada. Mas o Davide consegue descascá-la como o "negão" da feira!
Quinta-feira passada não foi diferente: voltei carregada de mandioca, leite de coco e trigo para kibe.
Convidei o Francesco pra jantar em casa no sábado e assistirmos Tropa de Elite 2, já que ele, apesar de fazer aulas de Português com a cunhada aqui, precisa de uma ajudinha com as gírias.
Mas o que fazer para acompanhar a mandioca? Moqueca 2 vezes na mesma semana, não. Aí achei na internet uma receita de kibe de ricota. Fiz e ficou bom, mas até o Davide admitiu que o kibe de carne tem o sabor mais forte.
A mandioca era tanta que deu até pra congelar um pouquinho pra outra ocasião. Assim eu não preciso ficar carregando 2kg toda vez que tenho vontade de comer!
Além do mais, com essas lindas noites de Primavera que estão chegando, podemos estrear nosso terraço e nada melhor que muita mandioca, pastel e kibe!